Call The Police: queixos caídos sobre a mesa machucam-se menos que caídos no chão

Com três artistas de peso, Andy Summers, Rodrigo Santos e João Barone, cada um com agendas lotada a conciliar, a turnê teve pouquíssimas datas. Resta a esperança de que se cumpra a promessa de que ela se estenda para outras cidades brasileiras, para a Europa, para o Japão futuramente. A primeira data foi em São Paulo, no Tom Brasil, casa que frequentemente recebe grandes nomes da música brasileira e internacional. Relebre o show e, no final deste texto, saiba novidades (uma ruim e uma boa) sobre a turnê.

A configuração da casa, no entanto, com mesas e cadeiras, estava diferente do que pensamos para um show de rock, ainda mais para um show que traria membros do BARÃO VERMELHO, dos PARALAMAS DO SUCESSO e do POLICE (ou do THE POLICE, como nos habituamos a chamar a seminal banda inglesa, mesmo soando estranho esse “o THE” ), a clássica banda inglesa formada pelo baixista e vocalista Sting (que também fará show em São Paulo em 6 de maio), o já citado guitarrista Andy Summers e o baterista Stewart Copeland.

Com um breve atraso, soou uma intro pré-gravada, com uma colagem de várias músicas que mencionam o POLICE (a maioria bem ruim, diga-se). Era o início do encontro destes três gigantes, um encontro ao qual seríamos testemunhas. A escolhida para começar o embate é “Sincronicity II” e Barone e Andy já mostram a que vieram, enquanto Rodrigo canta bem, sem tentar imitar o timbre de voz de Sting, mas mostrando bastante conforto. O baixista, em papel de frontman, até pede que a galera chegue mais perto, gesticulando, mas, infelizmente, a configuração do salão não permite.

Andy, indiscutivelmente o astro mais incensado ali, não por ser inglês, mas por ter feito parte de banda que serviu de inspiração para o próprio PARALAMAS, não se furtou a também se comunicar com o público. “Isso é um déjà vu. Parece que já vivi isso antes. Mas está melhor. Esses músicos são fantásticos”, disse. Ele e Rodrigo muitas vezes tocam um em frente ao outro, não aproveitam o grande palco, duelam. E se Andy, do alto de seus 74 anos, “vence” o duelo com um solão (e outro, e mais outro) em “Walking On The Moon“, o faz por conta das boas bases garantidas por Rodrigo e Barone. “Tá bom o clima, hein? Rock and Roll”, conclui o baixista do Barão.

E o que eu acabei de dizer se repete em “Spirits in the Material World“, outro solo daqueles de valer o preço do ingresso. A sequência de sucessos continua com “Hole in My Life” e “Invisible Sun“, em que Barone começou tocando outras partes do seu enorme kit, tanto que teve que ficar em pé.

A regueira “Tea in the Sahara” não é uma das mais conhecidas do POLICE, mas o solo de Andy é de cair o queixo. E é muito bom que o trio tenha incluído canções como “Driven to Tears“, “Hole in My Life“, “Bring on the Night” e a citada. Mesmo para quem já viu o POLICE ao vivo alguma vez, é sempre bom ter a oportunidade de ouvir canções que não frequentaram as FMs como outras irmãs suas. O público, no entanto, parecia mais contemplativo (o que não é necessariamente uma afirmação negativa) que animado.

So Lonely”  despertou a plateia que cantou junto. Pelos punhos no ar, vê-se que o pessoal queria dançar. Pra que cadeiras? Fica a pergunta. Parece show em churrascaria. E ainda haviam as garçonetes passando… Não chegavam a atrapalhar e fica aqui todo o respeito ao trabalho dessas queridas, mas, pular e gritar se relaciona melhor com um show de rock que comer e beber. Alheio a tudo isso, Andy inclui solos que as originais nem tem. E isso é muito bom. Alias, é muito bom. As mesas, pelo menos serviam para aparar os queixos das pessoas, impedindo que caíssem no chão. Eu exagero? Nem tanto.

Depois Rodrigo faz o momento karaoke com o público, repetindo diversas vezes e de diversas formas a frase do refrão. Em seguida, em mais um clássico, “Can’t Stand Losing You“, Rodrigo pede para acender a luz da plateia enquanto todos batem palmas e dá um show de interpretação.  Com todos já devidamente aquecidos, vem “Roxane“, que foi recebida com gritos, embora contidos. Não sei se era hora para sermos educados. Não deveria ser. Também faltou alguém pra gritar o nome da moça no refrão, coisa a que Barone e Summers se abstiveram.

 

Message in a Bottle” é outro sucesso acrescentado à lista, seguida de “Every Breath You Take“. Finalmente as pessoas começavam a preferir deixar suas mesas e ir dançar nas laterais. Embora lá a visibilidade nem fosse tão boa que seus locais originais (o que não quer dizer que  seja ruim). Uma pena que já seja a hora da banda sair do palco

Eles voltam e Rodrigo faz todos os agradecimentos. É hora do bis. E seria bom que fosse um bis do tamanho da primeira parte do show. A primeira dessa segunda parte é mais um hit radiofônico, conhecido mesmo por quem não está nem aí pro Rock and Roll, “Every Little Thing She Does Is Magic“. Nesse momento, boa parte do público já estava em pé. E os famigerados celulares também. Tínhamos voltado a um show normal. “Next to You“, no entanto, decreta o fim da festa. Os três astros se abraçam, Barone pulando em Rodrigo e parecendo um menino. Na verdade, foi isso que o veterano do PARALAMAS pareceu o show inteiro, tamanha era sua aparente felicidade em participar daquilo ali. E minutos depois, os três músicos ainda foram gentis em atender os fãs mais afoitos no camarim.

Sumarizando: a voz de Rodrigo estava muito boa (manteve-se em sua zona de conforto no início do show, se arriscou mais do meio em diante, mas jamais saiu do Tom), Barone é um fera (e uma fera homenageando uma de suas influências no PARALAMAS por si só já é algo a não se perder) e Summers fez solos incríveis. Uma pena que o show tenha sido curto e, para o público, tenha começado mesmo (aquela histeria, aquela festa) mais perto do seu fim. Também foi bom que tivessem tocado canções mais Lado B, mas faltaram alguns sucessos obrigatórios – “De Do Do Do, De Da Da Da“, “Don’t Stand So Close To Me“, “King of Pain“, “Wrapped Around My Finger“. Era quem sabe o que faltaria para transformar a “brincadeira entre amigos” (termo roubado do colega Regis Tadeu) em um dos mais memoráveis shows do ano em São Paulo. Resta a quem não foi (e a quem foi e gostaria muito de rever, esse repórter incluído) que alguma das datas acabe virando um DVD.

   

SET LIST

  1. Synchronicity II
  2. Walking on the Moon
  3. – Driven to Tears
  4. – Spirits in the Material World
  5. – Hole in My Life
  6. – Invisible Sun
  7. – Bring on the Night
  8. – Tea in the Sahara
  9. – So Lonely
  10. – Can’t Stand Losing You
  11. – Roxanne
  12. – Message in a Bottle
  13. – Every Breath You Take
    • Bis
  14. – Every Little Thing She Does Is Magic
  15. – Next to You

Agradecimentos:

Mirian Martinez, pela atenção e credenciamento.

Marta Ayora, pelas lindas imagens que ilustram essa matéria.

Toda a equipe do Imprensa do Rock, pela confiança e apoio.

Mais Fotos:

 

Update:

Depois de passar por São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Paraguai e Rio de Janeiro, houve um grande imprevisto pouco antes do último show, na cidade de Teresópolis. Andy Summers levou um tombo e fissurou o dedo da mão, tendo que imobilizar pra fazer cirurgia (que aconteceria em Los Angeles, para onde o músico já iria após a turnê). Rodrigo Barone decidiram fazer o show, pois todos os ingressos haviam sido vendidos, mas entraram em acordo com a casa Paradise Garage, para devolver o ingresso a quem quisesse. E se houve esta notícia ruim, uma notícia boa também foi divulgada. Um novo show foi marcado para novembro, o que também quer dizer que haverão mais datas no Brasil. O trio informou também que, em uma dessas ocasiões, o show será registrado em DVD. Quanto ao show de Teresópolis, o público não ficou na mão, pois, mesmo sem o Andy, Rodrigo Barone tocaram canções do POLICE, mas também de suas próprias bandas, o BARÃO VERMELHO e os PARALAMAS DO SUCESSO, junto ao guitarrista da banda PEPPERBAND, Gustavo Camardella, e com Leo, filho de Rodrigo, tocando baixo nas músicas do BARÃO e dos PARALAMAS. Resta torcermos pela plena recuperação de Andy Summers e aguardar mais shows dessa turnê.

Saiba Mais:

Não deixe de ler nossa entrevista com Rodrigo Santos, sobre o show e muito mais.

Entrevista exclusiva com Rodrigo Santos (Barão Vermelho)