Um ano sem Andre Matos, o ícone, a lenda e o músico

Voe, voe para as estrelas
Alcance-as no alto
Traga de volta as respostas da noite
Role com as nuvens
Cante com os pássaros
Porque um dia vamos ter de dizer adeus!” – (For Tomorrow – Shaman)

Um ano atrás, a vida dava um daqueles baques que nos jogam na realidade de que ela é triste em certos momentos e que ninguém está imune à ela, ninguém é maior do que ela, e o nosso tempo, seja para quem for, chega ao final.

Em 8 de junho de 2019, por volta do meio dia eu chegava em casa após comprar um presente para minha namorada Thalia para o nosso primeiro dia dos namorados juntos, recebi uma notícia de que alguém tinha partido algumas horas antes, surgiu como um boato, foi tomando força e se confirmou. Andre Matos havia realmente morrido na manhã daquele sábado. Eu teria que me despedir de um alguém conterrâneo, sim, um brasileiro que ajudou a colocar o Brasil na rota do Metal mundial, me despedi do músico, da lenda, o nosso maestro Andre Matos, que se foi cedo demais e nos fez dizer adeus antes da hora.

Discorrer sobre tudo o que Andre representava na música mundial é até desnecessário, pois qualquer um que tenha o mínimo contato com o gênero já ouviu falar em algum momento sobre seu nome, seja envolvido com qualquer um dos seus projetos, o Viper, o Angra, o Virgo, Symfonia, o Shaman ou a sua carreira solo. E desse modo, foi num passado meu que se confunde com o de muitos brasileirinhos que sentiam o calorzinho e o afeto de ouvir aquela voz.

Um pequeno jovem assistindo à “O Beijo do Vampiro” ouve uma música com tons épicos, cheia de vigor e uma voz que corta o coração tamanho seu poder, mas ao mesmo tempo tão cristalina como a água mais limpa de um rio. Numa época em que internet era para poucos, a busca do que era de fato aquele som se desencontrava, “é Angra, não é Angra” diziam, até que um dia em um programa de videoclipes aparece o vídeo de “Fairy Tale“, a tal música da novela, e aí sim a história se esclarece, ex-membros do Angra haviam formado essa banda e a eles pertencia a composição. Assim aparecia o Shaman para este mesmo menininho à época e que hoje vos escreve. E qual foi a felicidade ao descobrir que o zelador da escola tinha o disco inteiro desses caras, numa época em que baixar um MP3 era quase impensável, então vamos lá fazer uma cópia desse disco e furar de tanto ouvir, e de fato o disquinho arranhou de tanto ser usado, mas graças existia uma segunda cópia.

Daí em diante os acessos foram se tornando mais fáceis, materiais foram chegando, descobri os discos do Angra e assim tive conhecimento da beleza do “Holy Land”, meu Deus, que música era aquela, que obra, a paixão bateu e que mágico era ouvir os tambores de “Carolina IV” ou gritar na emoção do refrão de “Make Believe” e o amor por esse disco só aumentou a cada ano que passava. Depois de tantos anos e tentativas, em 2017 eis que surge uma chance e finalmente fui agraciado em ver o maestro a menos de um metro de distância em ação, e em que ocasião? Na comemoração de 20 anos dessa obra suprema do Angra e uma das maiores do Metal nacional, e que honra ver aquilo tudo executado do começo ao fim na minha frente, foi divino e uma sensação de outro mundo.

Foi ali que de fato a grandeza desse ícone apareceu. Andre era de fato um maestro em todos os sentidos, esbanjava satisfação em estar em cima do palco, regia suas músicas com a maior categoria, despejava rios de carisma com um sorriso e ao brincar com o pedestal de seu microfone. Era ele no centro das atenções e correspondendo seu público. Se despediu dizendo querendo estar de volta naquele palco em breve e em outras ocasiões…

(FOTOS: MARCIO MACHADO – FESTIVAL ROÇA N’ ROLL 2017)

Mas naquele sábado, há um ano, esse desejo foi interrompido quando sua vida se apagou deste plano e o maestro foi embora em definitivo. A cortina se abaixou para sempre e morreu nosso querido Andre Matos, com somente 47 anos vividos conosco e tivemos de aceitar.

Foi um dia mais que triste, ninguém esperava, fomos pegos de surpresa, mas a vida tem dessas. Um ano após, as vezes me deparo ouvindo alguma de suas músicas e a ficha ainda não cai sobre a sua partida.

Mas a sua mensagem está aqui, a luz não se apagou, ela só foi brilhar lá de cima agora e foi recebida pelos anjos que tanto percorreram sua vida. Sua obra está aqui conosco para sempre, um legado enorme. Evitar o choro ainda hoje e principalmente nesse um ano é impossível, mas junto com isso o orgulho de ser do mesmo lugar, ele era do nosso Brasil que passa por tempos sombrios e na sua arte conseguiu e ainda consegue dar um pouco de alivio à tantos ouvidos inquietos, em nossas almas inquietas que veem o caos no mundo atual.

Obrigado por tudo e que tenha seu descanso merecido! Obrigado Andre Matos.

 “Agora você segue seu caminho
Cai a última lembrança
De seu lindo e amável rosto” – (Make Believe – Angra)

Avatar
Avatar

Marcio Machado

Estudante de História pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), mas com o pé no jornalismo musical, desde os 12 anos se arriscava à escrever sobre o que ouvia em cadernos, se enveredando pela escrita jornalistica do Metal desde 2016 com o Whiplash, tendo de lá para cá, 80Minutos, Headbangers News, Gaveta de Bagunças, Headbangers Brasil e recentemente o Imprensa do Rock, como casas para seus textos e chatices. Tem como bandas de cabeceira Korn, Alice in Chains e Pantera, mas fã de muita coisa dos anos 90, a melhor década.