Shadowside: entrevista com Dani Nolden!

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Shadowside, banda independente que foi surgindo aos poucos e que hoje, se encontra num patamar incrível. Tendo tocado com bandas como W.A.S.P e Iron Maiden, recentemente voltaram de uma turnê intitulada de “Hellish Rock – Part II” com nada mais, nada menos, que Helloween e Gamma Ray. Confira uma ótima entrevista com a belíssima vocalista Dani Nolden que hoje se encontra como uma das melhores vocalistas femininas do Metal Nacional!

Shadowside, bem-vindos à Imprensa do Rock!

Dani Nolden: Obrigada pelo espaço!

Primeiramente, o que significa “Shadowside” e por que esse nome para a banda?

Dani Nolden: Todo mundo tem um “shadowside”, seja ele bom ou mau, ninguém é 100% santo, nem 100% demônio. Somos seres de dualidade que, apesar de termos um lado que predomina, sempre temos aquilo que preferimos manter oculto, às vezes até de nós mesmos. Um “bad boy” não vai querer admitir que tem seu lado romântico, assim como alguém que se faz de anjo não quer demonstrar que tem seus acessos de raiva. “Shadowside” é isso… é o que todos nós temos escondido e que faz parte da nossa essência. Quando estava formando a banda, achei que seria um nome interessante, pois “shadowside” está em tudo e todos e heavy metal sempre será um gênero musical que sobrevive independente de estar exposto na grande mídia.

Como surgiu a banda?

Dani Nolden: Como um grupo de adolescentes que queria se divertir e fazer música. Não tínhamos grandes ambições, na verdade nem sabíamos se faríamos shows ou não. Apenas queríamos gravar nossa arte e compartilhá-las com pessoas que gostassem do mesmo tipo de som que nós. Não tínhamos ideia de onde isso nos levaria, tínhamos sonhos mas pensávamos que eles estavam distantes demais para que pudéssemos alcançá-los. Alguns desses sonhos eram gravar um álbum, fazer shows com nossos artistas favoritos, tocar em grandes casas, fazer turnês pelo mundo… 12 anos após o primeiro EP demo, lançamos 3 álbuns, fizemos shows com alguns dos nossos artistas favoritos, valendo a pena mencionar Iron Maiden no Rio de Janeiro, fizemos shows em 30 países e fomos a primeira banda de Metal do Brasil a tocar no Olympia em Paris (FRA), casa fundada em 1888 que já recebeu artistas como Beatles, Black Sabbath, Jimmy Hendrix, Elis Regina, Tom Jobim, entre muitos outros… tem sido uma jornada e tanto! Às vezes paramos para pensar se é tudo real ou se ainda estamos em 2001, sonhando acordados (risos). Nem nos sonhos mais loucos eu imaginava que chegaríamos tão longe.

Quais são as principais influências (artistas-gêneros)?

Dani Nolden: Não temos influências específicas de um artista ou outro, gostamos de praticamente tudo dentro de Rock e Metal, além de várias outras coisas do pop dos anos 80 e outros gêneros… tudo nos inspira de certa forma, porém não pensamos em algo específico na hora de compor, especialmente porque cada um de nós prefere algo diferente e não conseguimos sequer concordar com uma banda favorita entre os 4 (risos). Acho que isso acaba sendo um diferencial para o Shadowside… temos como desafio agradar 4 pessoas dentro da banda que não gostam das mesmas coisas, então precisamos criar algo que todos os membros gostem. Só concordamos sempre que precisa ser pesado e ter energia!

Vocês praticamente acabaram de voltar de uma gigantesca turnê européia com o Gamma Ray e Helloween aos quais particularmente sou fã desde pequeno. Estar ao lado de Andi Daris e Kai Hansen é literalmente para poucos. Conte-nos a experiência de tudo isso. Bastidores, os fãs europeus, a experiência em cima de palcos gigantescos. Afinal, o que é tocar com duas bandas famosíssimas?

Dani Nolden: Compartilhar o palco com outras bandas é sempre uma ótima experiência, porém acompanhar bandas desse porte em uma turnê inteira é não apenas uma honra, mas também um desafio. Temos a responsabilidade de agradar a um público bem exigente, que está lá para ver suas bandas favoritas e não necessariamente está interessado em conhecer algo novo. Além disso, eles terão a oportunidade de nos comparar diretamente a esses artistas já consagrados, portanto a tarefa não é simples! Estávamos confiantes pois parte do público já nos conhecia e a resposta sempre que tocamos na Europa foi excelente, porém tocamos em muitos lugares novos onde não tínhamos ideia de como as coisas seriam, não sabíamos se alguém havia ouvido falar de nós, se gostavam do que fazemos, então muita coisa foi novidade e ficamos muito felizes com a reação das pessoas. Encontrávamos sempre pessoas cantando as músicas quando as conheciam, batendo cabeça e acompanhando com palmas ou gritos quando estavam conhecendo na hora. Na Polônia, por exemplo, até os seguranças batiam cabeça! Nos bastidores, o clima era sempre muito tranquilo, todos sempre cordiais, brincando conosco, tentando nos deixar confortáveis. Eles sabiam que estávamos meio tímidos pois já havíamos feito uma tour com o W.A.S.P., que foi uma ocasião tranquila também, mas muito pouco nos era permitido. Não podíamos entrar na casa antes das 17h, por exemplo. Porém com Helloween e Gamma Ray tudo foi muito simples e em um clima de amizade. Quando eles perceberam que estávamos cheios de cerimônias, trataram logo de nos pregar peças para que parássemos… Fabio Buitvidas, nosso baterista, estava montando sua bateria na frente do palco, na pista, durante a passagem de som do Gamma Ray, adiantando as coisas para quando chegasse nossa vez. O técnico de bateria deles foi até ele e disse, muito sério: “você está atrapalhando. Fique a 25m de distância do palco, por favor”. Fabio acreditou que o pedido era sério e sem questionar, começou a carregar suas coisas para longe e quando olhou pra trás, viu o cara quase rolando no chão de tanto rir (risos). Com brincadeiras assim, eles nos mostraram que não planejavam ser rígidos conosco. Ao final da turnê, o ambiente era muito leve e amigável entre todos.

Sobre o mais recente trabalho “Inner Monster Out” além de terem entrado para os mais importantes do heavy metal nacional, segundo a própria “Roadie Crew”, ganharam também o prêmio “11th Annual Independent Music Awards”. Explique um pouco mais sobre esse prêmio que anda divulgando uma boa quantidade de bandas independentes pelo mundo.

Dani Nolden: O prêmio é considerado o Grammy da música independente nos Estados Unidos. Inscrevi a banda sem qualquer esperança de vencer, pois sei que milhares de bandas se inscrevem todos os anos, de todas as partes do mundo. É um prêmio não apenas para bandas independentes, mas também que estão com gravadoras independentes, portanto grandes bandas se inscrevem. Alguns dos ex-participantes são bandas como Lacuna Coil e All that Remains. Quando fomos escolhidos como um dos finalistas, já comemoramos como se fosse uma vitória, pois estávamos entre os 5 de todos os inscritos. O Asking Alexandria venceu pela votação dos jurados, que era sinceramente o que eu esperava, e como uma mesma banda pode vencer tanto pelos jurados quanto por votação popular, imaginei que eles levariam o prêmio por votação popular também. Porém quando fomos anunciados vencedores, quase caí da cadeira (risos). Não imaginava que havíamos crescido tanto assim. Acredito que isso tenha sido o resultado do “Inner Monster Out” ter sido muito tocado nas rádios dos Estados Unidos, onde chegamos a 9ª colocação entre as bandas de Hard Rock e Metal mais tocadas nas rádios colegiais e não-comerciais, e permanecemos por um total de seis semanas entre as 15 mais. Os norte-americanos sempre nos acolheram por lá, mas dessa vez os resultados superaram todas as nossas expectativas.

Sobre as participações especiais dentro do álbum como Mikael Stanne (Dark Tranquillity), Björn “Speed” Strid (Soilwork), Niklas Isfeldt (Dream Evil) e Roger Moreira, lider do grupo Ultraje a Rigor, como foi à ideia de convidar todas essas feras pra esse álbum de puro peso?

Dani Nolden: Desde o começo, ficou evidente que precisaríamos de convidados ou teríamos que mudar a história. Pensamos em vários nomes dos quais gostamos, mas as melodias foram feitas para as vozes de Björn e Niklas ou ao menos vozes similares. Como Niklas está na mesma banda que Fredrik e Björn tem amigos em comum conosco, conseguimos organizar para que os dois participassem.

Mikael foi uma surpresa, eu teria feito mais partes para ele porque acho a voz dele fantástica, mas simplesmente não sabia que ele participaria (risos). Nós conhecemos o baterista do Dark Tranquillity, Anders Jivarp, durante nossa “mudança” na Suécia e ele foi nos visitar com Mikael Stanne no dia da gravação de Björn. Ele perguntou se poderia cantar também e quem seria louco de dizer não?! (risos) Eu achei excelente, deu um toque ainda mais especial para a música, especialmente porque ele e Björn dividem os vocais guturais.

Foi algo muito divertido, porque nós tiramos todos esses caras das suas zonas de conforto, eles tiveram que fazer algo diferente do que estão acostumados a realizar em suas próprias bandas, mas também trouxeram algo diferente para nós e ficou uma mistura muito interessante.

Já com o Roger, agora que o álbum está lançado, eu finalmente pude observar a reação e está sendo excelente! Acho que o fã de metal, por mais radical que ele seja, entendeu qual é o espírito dessa música. A letra é extremamente atual, pois apesar de ter sido escrita nos anos 80, ainda é um retrato do Brasil. Para mim, é como refazer a crítica. A música é divertida, mas não deixa de falar a verdade. Fizemos uma versão bem mais pesada também, ficou bem com cara de Shadowside, é como nós soaríamos se tivéssemos letras em português. Como o Roger curtiu, pedimos para que ele participasse e foi uma honra tê-lo na gravação. Ele é meu maior ídolo no Brasil, uma lenda viva da história do rock brasileiro e deve ser respeitado mesmo por quem não curte algo fora do metal.

 Desde o lançamento do “Inner Monster Out” vocês mesmos já devem tê-los ouvido infinitas vezes e claro sempre existe aquela canção especial da banda. Comente qual é essa a canção e a história dela.

Dani Nolden: Não temos uma música especial, o álbum inteiro é especial para nós, pois trabalhamos em cada música de forma cuidadosa… talvez algumas músicas como Angel with Horns, Habitchual, Waste of Life e a faixa-título Inner Monster Out, tenham se tornado especiais porque o público sempre reage de forma muito intensa a elas nos shows e isso acaba nos contagiando. A coisa se torna um círculo virtuoso, pois os fãs antecipam o momento do show em que tocamos essas músicas e nós acabamos reagindo, o que transforma esses pontos específicos da performance em algo explosivo, com a galera gritando, cantando junto, batendo cabeça. É maravilhoso ver essa reação e sem dúvida é o público que decide o que se torna relevante na carreira de uma banda e o que fica pra trás. Não insistimos muito em músicas que não funcionam… são os fãs quem decidem o que tocamos ao vivo e o que se torna especial na nossa carreira.

Para vocês que já tiveram a experiência suficiente de gravar tanto em estúdios Brasileiros como nos Estrangeiros, o que vocês mais sentiram na hora das gravações? As exigências são diferentes, os produtores existem algo em comum, o que mais marcou nessa experiência para a banda?

Dani Nolden: Acho que a grande diferença foi termos um estúdio disponível 24 horas por dia somente para nós e literalmente morarmos nesse estúdio. Sempre gravamos em São Paulo e eu sou de Santos, portanto isso significava 1h30 de viagem para chegar e mais 1h30 para voltar para casa todos os dias, já que ficar em um hotel em São Paulo era algo inviável. Isso acabava transformando o processo de gravação em algo extremamente cansativo, criava um ambiente que permitia que todos nós, tanto banda quanto produtor, cometessem e deixassem passar erros. Muitas vezes tínhamos oito horas diárias para gravar, porém como outras bandas estavam gravando no mesmo estúdio ao mesmo tempo, chegávamos com tudo diferente do que havíamos feito, então perdíamos tempo, no final do dia já estávamos cansados e querendo ir pra casa, portanto por mais cuidadosos que tentássemos ser, sempre acabávamos deixando um “está bom o suficiente”. Mas não está bom o suficiente a menos que esteja perfeito e morando no estúdio, pudemos alcançar um álbum livre de erros, espontâneo, com todas as nossas ideias. Foi como gravar no quarto de casa e nos permitiu focar completamente na gravação. Os produtores são diferentes, sem dúvida alguma… a diferença não é o estúdio, é apenas o profissional. E não significa que não tenhamos profissionais excelentes no Brasil… são apenas diferentes. É muito diferente trabalhar com alguém que vive e respira Heavy Metal e Rock 24 horas por dia há 20 anos, como o Fredrik Nordström, do que trabalhar com alguém que gosta muito de Heavy Metal e Rock, mas tem que trabalhar para sobreviver no Brasil com os gêneros que fazem parte da cultura brasileira. Quando trabalhamos com Dave Schiffman, também sentimos uma diferença… Dave era mais cru, mais feeling enquanto Fredrik é bem mais rígido e perfeccionista. Não sei se isso é cultural ou se é apenas uma diferença de estilo de trabalho, porém acredito que nos encontramos como banda porque pegamos um pouco do que Dave nos ensinou, com relação a energia, ao som mais emocional e aliamos isso ao nível de exigência técnica do Fredrik. Cada gravação foi um aprendizado enorme para a banda, mas queremos manter o que fizemos no Inner Monster Out. Gravar na Suécia, morando no estúdio, que acaba se tornando mais barato do que gravar aqui, e trabalhando com o perfeccionismo do Fredrik junto com a ousadia e energia brasileira.

“Inner Monster Out” foi um disco que teve um trabalho forte de divulgação, aparecendo demais na grande mídia e até se sobressaindo em relação a outros lançamentos recentes de outras grandes bandas. Você acha que esse foi o segredo para o disco ter sido tão bem sucedido?

Dani Nolden: Não, acho que o segredo foi a espontaneidade do álbum, afinal o trabalho de divulgação do Inner Monster Out foi o mesmo que dos álbuns anteriores. Na verdade, os álbuns anteriores tiveram até uma divulgação um pouco mais pesada. Dessa vez, decidimos fazer um lançamento independente no Brasil, confiando bastante na ajuda dos fãs para promover o álbum. Acabamos aparecendo na grande mídia porque nossos fãs são incríveis, espalham nossa música, nossas redes sociais, interagem conosco, chamam os amigos e o barulho se torna tão intenso que isso acaba chamando a atenção dos grandes. Devemos tudo isso ao nosso público. Foram eles que nos colocaram onde estamos e acredito que eles sentiram que o “Inner Monster Out” foi um álbum que veio do coração e não algo feito simplesmente para vender.

Pode nos contar um pouco sobre o que está para vir no novo vídeoclipe da banda? Como está sendo a seleção da protagonista?

Dani Nolden: O videoclipe na verdade é um TCC de um grupo da faculdade Unimonte, de Santos. Alguns dos membros da equipe são fãs do Shadowside, então como eles queriam fazer um videoclipe, ofereceram a ideia a nós. Nós aceitamos, é claro… é um grupo muito talentoso, cheio de ideias, com acesso a equipamentos de ponta da faculdade. A história é forte, relacionada a todos os tipos de vícios, várias meninas mandaram material, então tenho certeza que teremos o melhor clipe do Shadowside até agora. Estou animada! A atriz já foi selecionada, tanto pelo trabalho que ela enviou quanto pelo teste de câmera que ela fez… ela é super expressiva e o conceito do clipe é bem interessante. Acho que os fãs vão aprovar! Não teremos nada de humor dessa vez… será um clipe intenso.

Recentemente, vocês deixaram os fãs curiosos ao declarar que já estão pensando em um novo disco de inéditas. Pode nos adiantar algo?

Dani Nolden: Posso adiantar que será pesado! (risos) Temos ideias, mas estamos trabalhando nisso com calma. Nós nunca corremos com o processo de composição, deixamos as coisas fluirem naturalmente. Aos poucos vamos descobrir que direção o álbum vai tomar, mas com certeza seguirá o caminho que começamos a trilhar no Inner Monster Out, porém buscaremos novidades, superação, surpresas tanto para nós quanto para os fãs. Fazer mais do mesmo não funciona, então continuaremos com tudo que os fãs gostaram no Inner Monster Out, mas buscando algo ainda melhor. Vamos ver o que vai sair… só sei que vai ser muito divertido tentar! É assim que trabalhamos sempre… nos divertindo, fazendo o que gostamos, criando sem pensar, sem rotular, sem pressão.

Pra finalizar, muitíssimo obrigado por terem aceitado em bater um pequeno papo com a gente, deixem um recado para os fãs e a galera que acompanha diariamente a Imprensa do Rock.

Dani Nolden: Muito obrigada pelo apoio, espero que tenham curtido Shadowside e nosso álbum Inner Monster Out. Fiquem ligados na agenda do nosso site que ainda faremos vários shows pelo Brasil antes de encerrar a turnê. Nos vemos em breve!

Entrevista

Victor Santos (Editor Chefe)

Victor Santos

Victor Santos

Editor-Chefe em Imprensa do Rock
Victor Santos é editor-chefe do Imprensa do Rock e Diretor Geral do Programa Unimetal. Desde 2011, vem trazendo conteúdo de qualidade para os amantes da música e do cinema.
Victor Santos