Resenha de Filme | A Lenda de Tarzan: o espírito animal do verdadeiro Rei da Selva

Em 1912, ao lançar uma narrativa – a primeira de vinte e quatro – sobre Tarzan, Edgar não poderia nem imaginar como muitas gerações relacionariam a simples frase “o homem criado com macacos” ao nome de seu personagem (aliás, você sabia que Tarzan significa algo como “sem pelos”?), que seriam produzidas mais de duzentas adaptações, e que atualmente – 104 anos depois – estaríamos no cinema assistindo uma bela nova construção da história com alguns famosos de nosso tempo.

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O curioso é que mesmo após tantas versões cinematográficas – sendo que a primeira ocorreu no cinema mudo em 1918 –, a história manteve certo núcleo de originalidade, que se dá mais ou menos dessa forma: os pais de Tarzan se perdem – de muitas formas diferentes – na selva africana, morrem de forma brutal após trazerem o pequeno Clayton ao mundo, que é “adotado” por uma gorila, ao se deixar levar por seu instinto maternal. O garoto cresce na selva, aprendendo a se comunicar com os animais, não como “Doutor Dolittle” e sim algo mais convincente, reproduzindo os guinchos dos macacos, os rugidos dos leões e leopardos, o barrido do elefante e os pios das aves. Depois de crescido, o jovem conhece Jane Porter, uma moça inglesa e civilizada.

Caso não queira ler spoilers, não leia os parágrafos abaixo.

Dirigida por David Yates (Harry Potter: Order of the Phoenix, Half-Blood Prince e Deathly Hallows partes I e II), protagonizada por Alexander Skarsgard (John Clayton III ou Tarzan), Margot Robbie (Jane Porter), Christoph Waltz (Leon Rom) e Samuel L. Jackson (George Washington Williams), a aventura tinha tudo para ser a maior releitura de Tarzan de todos os tempos, mas se manteve no mesmo curso das outras adaptações, mudando apenas alguns detalhes do enredo. Ainda sim, com seus prós e contras, é o meu preferido.

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A adaptação está mais madura, trazendo um traço típico da Warner Bros. nos lançamentos recentes, coincidindo com o diretor: filmes sombrios. Após a empreitada DC x Marvel, sabe-se que a Marvel lança filmes engraçados, coloridos, que enchem os olhos; já a DC lança filmes de cenários sombrios, mais sérios e um tanto quanto mais analíticos. Juntando isso ao diretor que esteve à frente dos filmes mais sombrios da saga Harry Potter, não tinha pra onde fugir, né? Isso se refletiu aqui em The Legend of Tarzan, mesmo que hajam muitas visões das paisagens do Congo vistas de cima ou mesmo em panorama, os tons do filme são mais frios e há uma constância nisso durante todo o desenrolar de cenas.

O longa se inicia demonstrando que após Conferência de Berlim, o Rei Leopoldo II da Bélgica ordenou uma empreitada escravagista e genocida promovida entre 1895 e 1908, buscando por marfim e minerais no Congo. Dessa forma, os homens que trabalharam para Leopoldo II, desbravaram a África escravizando povos nativos e buscando riquezas através de Leon Rom (Christoph Waltz), o homem escolhido pelo monarca para lhe trazer tal riqueza.

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Tarzan, ou melhor, John Clayton III, construiu sua vida com Jane Porter em Londres, mais precisamente em sua mansão Greystoke como membro da Câmara dos Lordes (caso você não saiba, essa Câmara é basicamente a nobreza da Inglaterra e tinha certo poder político; ainda existe mas é menos poderosa do que na época em que o filme se passa). John está vivendo o desafio de se fazer ser visto como não somente o homem que viveu a selva até o mais profundo de seu ser, mas sim como John Clayton III, filho de um casal importante e um dos lordes que luta contra a escravidão impetuosamente. O problema, é que até mesmo as criancinhas o reconhecem como o aventureiro Tarzan e na África não é diferente. Chefe Mbonga (Djimon Hounso) é líder de uma das tribos nativas e está à procura de vingança pela morte de um ente importante e querido. No entanto, essa mesma tribo é detentora de diamantes valiosíssimos, que certamente Leon Rom quer muito, para que seja reconhecido para sempre e seu nome esteja escrito na história mundial. Mbonga e Rom fazem um acordo: Tarzan em troca dos diamantes.

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John Clayton III recebe um pedido para retornar ao continente africano, mas o recusa. No entanto, o diplomata estadunidense George Washigton Williams (Samuel L. Jackson), lhe faz uma proposta irrecusável: investigar um esquema de escravidão liderados por europeus. E como Tarzan poderia recusar proteger sua grande família africana? Embora relute, Jhon aceita ir. Jane fica animada assim que recebe a notícia e faz inúmeros planos para sua volta para casa, já que de acordo com cenas do filme, o pai da garota ensinava língua inglesa para uma tribo africana e por acaso do destino, isso a levou a conhecer Tarzan. Quando chegam à Africa, as preocupações de Jhon se multiplicam: os europeus querem o capturar, capturam Jane, estão escravizando, querem extrair minerais, ameaçam o habitat dos animais, seu irmão macaco o considera um desertor e Mbonga quer se certificar que ele esteja bem morto. Qual dessas deverá ser sua prioridade? Jane em primeiro lugar e depois todas as outras opções se seguem, com certeza.

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Uma observação importante é que diferente da Jane-Disney, a Jane de Margot Robbie fala fluentemente os dialetos de onde cresceu e conhece a lenda do garoto Tarzan, o qual acreditavam ser um espírito protetor da selva e animais. Em contraponto, essa Jane de respostas rápidas e corajosa, passou boa parte do filme presa e sendo uma donzela em perigo, assim como a Jane-Disney. O que era de se esperar, já que ela é o ponto fraco do homem-selvagem na maioria das adaptações.

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O filme demonstra muitos flashbacks de acontecimentos que marcaram Jhon durante sua vida, mas só os necessários para relacionar aos acontecimentos dos 110 minutos de duração, visto que ao que parece, os responsáveis pelo filme presumiram que todos já conheciam bem a história de Tarzan. De certa forma, é verdade. A maioria do público sabe um geral da história e assistindo ao filme, sente-se que poucas dúvidas restam – a não ser a minha clássica: como ele morou na selva por tanto tempo e não tinha barba e nem pelos no torso? Parece que a genética lhe foi muito generosa.

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Samuel L. Jackson e Christoph Waltz parecem ter incorporado seus papéis mais recentes nesse filme – não vejo esse fato de forma ruim, embora tenha visto algumas outras críticas que veem assim. Waltz demonstra o que é de se esperar de qualquer um de seus vilões: nunca podemos confiar em sua calma contida, demonstrando um vilão perigoso, marcante, impiedoso e corrupto; Já Samuel L. Jackson parece ser o chefe da S.H.I.E.L.D. nesse filme também. O personagem aparece já com um cargo importante, “recrutando” Jhon para essa missão com um discurso icônico. Depois, seu personagem fala sobre o passado, se mostrando como um ex-combatente de guerras civis que se arrepende dos danos causados aos nativos e que quer se redimir como diplomata, além de ajudar John/Tarzan durante o filme e ser engraçado.

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O filme visto em 3D ou IMAX pode ser uma boa experiência, já que as paisagens africanas se tornam mais vivas e próximas ao espectador. Vegetações, montanhas e até alguns personagens, formam cenas com certo relevo visual, como se houvesse mais profundidade na tela, quebrando a quarta parede. Cenas de ação entre as árvores, quando Tarzan pula de uma para outra ou se movimenta usando cipós são ricas visualmente, porém muitas vezes a computação gráfica (CG) fica fácil de ser vista, o que é muito comum atualmente e não prejudica o contexto geral do filme. Visto sem 3D ou IMAX, alguns cenários falsos e CG podem ser bastante aparentes, como se vê abaixo:

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A escolha de Alexander Skarsgard e de Margot Robbie foi ‘na mosca’, pois as aparências realmente correspondem muito à outra adaptação referência do ícone: o desenho ganhador do Oscar da Disney, de 1999. Ocorrem muitas cenas em que os closes no rosto de traços delicados de ambos, no torso definido e repleto de cicatrizes de Tarzan se demoram um pouco mais que o realmente necessário, mas isso também não afeta o filme num todo, e não é algo que os menos críticos perceberiam e reclamariam.

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Os animais que aparecem na trama, ficaram muito realistas e bonitos, enriquecendo a história.

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Você queria saber o final? Esse eu vou deixar pra você ver, já que o filme estreia dia 21 de julho e você pode ver todos esses detalhes e os outros que não contei no cinema.

Victória Cardoso

Victória Cardoso

Redatora em Imprensa do Rock
Mais jovem do que gostaria, gosta do que lhe agrada (sim, isso mesmo!), escritora amadora e observadora social nas horas vagas. A insana que vê potencial para uma boa leitura em todos os fatos do cotidiano.
Victória Cardoso