Papo de Guitarrista com Cauê Leitão: #3 Marcelo Barbosa (Almah)

Fala, galera! Como estão? Estamos voltando com mais uma edição da coluna “Papo de Guitarrista” com o mestre Cauê Leitão, somente o guitarrista da banda de Metal Progressivo ANDRAGONIA (São Paulo). Nesta terceira edição o cara entrevistou nada mais, nada menos que Marcelo Barbosa atual guitarrista do ALMAH, banda que vai tocar com o HIBRIA na 4ª edição do Rock in Rio que acontece no mês de setembro na cidade do Rio de Janeiro.

Como estão amigos e leitores da Imprensa do Rock? Tudo bem? Aqui quem fala é o guitarrista Cauê Leitão da banda Andragonia, e é com muita alegria que trago a vocês a edição 3 da coluna, depois de Paulo Schroeber (ex-Almah), André Hernandes (Andre Matos), é a vez do ilustre guitarrista Marcelo Barbosa do Almah, um dos maiores nomes da guitarra do Brasil sem sombra de dúvida. O papo tá bem bacana e muito produtivo, espero que vocês gostem e se divirtam!

Marcelo, primeiramente muito obrigado por ter aceitado bater esse papo. Você é um guitarrista que chama a atenção. É dono de um belo fraseado, tem muito bom gosto nas composições dos seus solos, encaixa as notas na hora certa. Quando você vai fazer uma composição ou mesmo um solo de guitarra qual sua principal preocupação?

Guitarosofia 1 – Marcelo Barbosa

Muito obrigado pelas palavras. As características citadas por você são exatamente as minhas maiores preocupações. A minha maior busca na música, é desenvolver uma identidade musical. Uma impressão digital sonora se assim pudéssemos chamar. Alguns músicos a tem, a maioria não. Isso não tem nada a ver com técnica ou estilo. Você ouve o The Edge, o Santana, o Gilmour ou o Dimebag, por exemplo, e não precisa de mais de umas poucas notas pra saber que são eles tocando. Na hora de compôr um solo tenho duas premissas: primeiro que tenha passagens melódicas, entoáveis, muitas vezes canto a melodia antes de pegar na guitarra para que a estrutura do instrumento não guie a composição.

A segunda premissa diz respeito à parte técnica. Adoro técnica e este componente é parte integrante e importante do meu playing. Mas tento evitar padrões melódicos e clichês. Se vou tocar um padrão, tento que seja algo não tão usado. Existem frases, principalmente no metal, que 80% dos guitarristas tocam. Não consigo ver música dessa forma. Me parece um pouco de comodismo, de preguiça. Quando vou gravar um solo, muitas vezes não sei o que vou tocar antes de apertar o REC, mas sei certamente o que NÃO vou tocar.

O guitarrista Paulo Schroeber era seu parceiro nas guitarras do Almah, e por motivos de saúde ele se afastou do grupo e deu entrada para o Gustavo diPadua. Você sentiu muito nessa mudança? Qual seria a principal diferença nos dois e como foi essa adaptação?

O Paulo é uma pessoa e um guitarrista fora de série. Sempre admirei a forma como ele encara a doença tão séria que tem. É uma lição de vida sem dúvida. Todos sentimos a sua saída, principalmente pelo laço de amizade que foi constituído durante o tempo que tocamos juntos.

O Gustavo é um cara que já conheço há vários anos. Temos o mesmo endorsee de pedais que é a NIG e na pior das hipóteses nos víamos e conversávamos bastante nas Expomusics. Sempre gostei da musicalidade dele. Ambos são músicos incríveis mas se fosse pra eu apontar uma diferença específica eu diria que o Paulo é um guitarrista muito técnico, com o playing bastante voltado para o trash/metal. O Gustavo neste ponto se parece mais comigo. É mais eclético, mais melódico apesar de possuir excelente técnica também. A adaptação tem sido tranquila. Estamos compondo juntos um novo CD que será lançado ainda esse ano e gostando muito dos resultados.

Fala um pouco sobre sua formação como guitarrista. Teve muitos professores? Passou por conservatório? Soube que você foi aluno do mestre Greg Howe, como foi essa experiência?

Eu sempre fui e sou um estudioso do instrumento, da música em si. Isso não vai parar nunca pois acredito que o barato tá na busca, no caminho e não na chegada. Como tenho muita tendência a medir resultados, aprender a curtir o processo a despeito dos resultados parciais ou finais é praticamente um mantra pra mim. Mas respondendo mais diretamente à sua pergunta, sou um grande fã de aulas. Me considero em parte autodidata pela quantidade de tempo que dedico a transcender o que me foi ensinado mas adoro ter um bom professor. Seja em que área for. Tenho certeza de que adianta demais o processo.

Estudei com vários professores de Brasília e cito como mais importante um cara chamado Allan Marshall que havia se formado no GIT (raridade no Brasil há duas décadas) com quem fiquei mais tempo. Fiz mais de 5 vezes o Curso de Verão da Escola de Música de Brasília e pude então ter aulas com nomes como Ian Guest, Toninho Horta, Lula Galvão, Guinga e muitos outros. Fora isso, acabei também fazendo um curso de verão na Berklee (Boston) e algumas aulas particulares com o Greg Howe que talvez tenha sido uma de minhas maiores influências.

Além de guitarrista, você tem a escola de música GTR, hoje umas das principais do país. Como é ter a carreira de músico bem atuante e administrar uma escola como essa? E sobre sua antiga banda Khallice, que tinha um Prog Metal de muita qualidade, a banda parou?

Não é fácil. Sei que eu poderia fazer ambas as coisas (ser empresário e músico) com resultados ainda mais significativos se me dedicasse a apenas uma. Mas aí começa o dilema, sei fazer as duas e gosto das duas. Além disso, como minha família é de origem simples nem eu nem meu filho teríamos as oportunidades que temos hoje se eu fosse “apenas“ músico. Tenho uma vida relativamente regrada, estudo meu instrumento quase todos os dias, dou minhas aulas, malho, enfim, faço escolhas que condizem com o que quero pro meu futuro e isso significa muitas vezes deixar de fazer o que a maioria faz.

Adoro citações e tem uma que diz algo como: “Se você quer chegar aonde a maioria não chega, faça aquilo que a maioria não faz.“ Quanto à Khallice, tá parada há algum tempo sim. Vez ou outra nos reunimos para um show especial, mas não temos trabalhado. Queremos fazer algo ainda esse ano.

MB Recording a Solo For a GTR Jam

Hoje no Brasil há rumores que o Metal melódico, Prog Metal, o próprio Heavy Metal tradicional estão em baixa, e que está predominando o metal mais pesado. Isso de uma forma influenciou na composição do último CD do Almah o “Motion”? Porque se agente for comparar com o CD Fragile Equality que é o anterior, o Motion está bem diferente, bem mais pesado, com alguns elementos bem Thrash. Além disso, o Edu Falaschi está cantando bem mais agressivo e bem menos agudo, o que você tem a dizer sobre isso?

Você tem razão. Mas não foi algo intencional, programado. Na verdade o Fragile Equality foi muito mais como uma preocupação consciente. Já o Motion é um retrato, uma radiografia muito honesta do que sentimos vontade de fazer naquele momento. O mercado é importante mas música é arte acima de tudo. É expressão e quando deixamos forças externas como mercado, gravadora, ego ou seja o que for definir o caminho do trabalho acabamos por perder uma excelente oportunidade de criar algo verdadeiro, algo com alma. O Motion tem isso e esperamos conseguir o mesmo resultado com os próximos.

Quais os guitarristas que mais te influenciaram? Hoje você busca conhecer novos guitarristas? Você costumava ou costuma escutar guitarristas brasileiros?

Tenho influência de vários guitarristas. No começo ouvia bastante os caras que naquela época despontaram como virtuoses como Steve Vai, Joe Satriani, Malmsteen, etc… Depois descobri Greg Howe, Kotzen, Steve Morse, Allan Holdsworth, BrettGarsed… Hoje ouço bastante Joe Bonamassa, Govan, Danielle Gottardo … É muita gente boa. Poderia citar cem e ainda faltaria gente. Os guitarristas caem na minha mão através de alunos ou da própria internet. Tenho procurado ouvir outros instrumentistas, principalmente pianistas e saxofonistas. Tento aplicar ideias e conceitos desses instrumentos à guitarra. Quanto aos guitarristas brasileiros, claro que admiro vários. Temos excelentes músicos no Brasil.

Quando comecei, o Edu Ardanuy e o Kiko já eram famosos na cena e foram inspiração tanto musical quanto pessoal em muitos quesitos. Me tornei amigo de ambos e até hoje temos uma forte amizade e parceria. O Mozart sempre me inspirou como didata e é uma pessoa fenomenal também. Alguns outros artistas brasileiros que considero gênios e amo a obra seriam Guinga, Hamilton de Holanda, Toninho Horta, o Luciano Magno de Recife. Enfim, a lista é infindável.

BARBOSA2

Quais são suas principais atividades com a guitarra?

Aulas, estudo, composição para o Almah e um trabalho solo, shows e workshops. Toco ao vivo ao menos uma vez por semana. Em algumas semanas pode chegar a três ou quatro apresentações. Tenho uma média de 22 alunos que não quero aumentar senão começa a atrapalhar as outras coisas que quero fazer.

Qual equipamento que você está usando?

Bom… Tenho basicamente três setups. O Setup que uso em Brasília é bem complexo e em grande parte se parece com o setup de caras como Steve Vai ou John Petrucci. Pela complexidade, tamanho e peso dele, fica inviável levá-lo para outras cidades. Ele é basicamente um BognerShiva 20th, Duas caixas 4 X 12 Bogner, um Fractal Axe FX II, um CGX VodooLab, pedais (todos ligados no loop do CGX) Flanger e Phaser Van Halen MXR, compressor e EasyDrive`nBoost da NI, AC Booster da Xotics e Super Sport da Barber. No chão GroundControl, WahDunlop modelo JoewBonamassa e afinador korg. Pedal Frame powersupplyFire.

Tenho outras pedaleiras menores que uso em viagens e ultimamente tenho usado o PEC-02 roteador de pedais da Providence, empresa japonesa que me patrocina que têm produtos de qualidade incrível. As cordas são Dean Markley 0.10 e os cabos Santo Angelo.

Se você fosse dar uma dica para um guitarrista que quer entrar no mercado de trabalho, seja dando aulas, representando marcas, fazendo workshop, qual dica daria?

Costumo dizer que tocar muito bem é obrigação. Pré-requisito, o resto não importa. Acho que os guitarristas, de maneira geral, hoje estão preocupados demais em ser endorsee, gravar vídeo, etc e esquecem de aprender a tocar. Tem muita gente ruim no youtube e muita gente ruim sendo endorsee de grandes e pequenas marcas. Virou a feira do endorsee, todo mundo é endorsee de algo. Acho que as pessoas devem se preocupar mais em tocar bem, gravar coisas de qualidade, ir pra estrada, o resto é consequência.

Tendo dito isso, diferenciais como: saber falar bem, ter educação e respeito, estar antenado às tendências de mercado, falar inglês, ser profissional (o que é obrigação mas em nossa área não é tão comum) são diferenciais, que somados ao talento, podem alavancar o seu sonho, a sua carreira. Uma dica curta seria: estude bastante seu instrumento, desligue a TV, leia um bom livro por mês.

ALMAh – Days Of The New

ALMAh – Late Night in 85′

Na visão do Marcelo Barbosa, o que o guitarrista deve ter para se tornar completo?

Se você está falando musicalmente tudo depende dos objetivos. Se tornar um músico completo é algo muito difícil de ser alcançado. Acho importante trabalhar alguns fundamentos de forma balanceada. Posso citar alguns como harmonia, improvisação, percepção, técnica e composição. Paralelamente a isso, ter um bom timbre e bom gosto também é essencial em minha opinião.

Quais os critérios que você usa quando vai compor uma música instrumental? E quando vai compor no Almah onde possui voz e a guitarra na maior parte do tempo está acompanhando e não solando, como você pensa na hora de compor?

ALMAh – Living and Drifting

Tudo depende da música, do clima. Em termos instrumentais, a guitarra faz o papel da voz, então tenho que me preocupar muito mais em ter uma melodia marcante. No caso do Almah, enquanto tem voz a preocupação é ter uma base que seja interessante mas não brigue com o vocal, que é a parte mais importante daquele momento. Adoro riffs pesados e melodiosos também. Rock bom pra mim tem que ter riff bom de guitarra.

Na sua visão, de um guitarrista bem atuante no mercado de trabalho, vai fazer muita diferença o guitarrista saber ler partitura?

Creio que na maioria das vezes, não. A não ser que a pessoa tenha a carreira voltada para um trampo de big band ou música instrumental com pessoas de formação acadêmica. Em termos de rock e pop definitivamente não. Mas sempre encorajo a pessoa a saber ler música. Eu não tenho mais uma boa leitura à primeira vista mas consigo ler qualquer partitura se tiver alguns minutos. O entendimento das divisões rítmicas pode ajudar bastante também na hora de expressar ideias a outros músicos em uma gig. Se você for professor, acho obrigatório. Se não for, garanto que mal não vai fazer.

Teve uma história curiosa que você substituiu o Kiko Loureiro em alguns shows do Angra, conte um pouco sobre isso e como os fãs reagiram?

O Kiko é um grande amigo já há mais de uma década e antes mesmo de acontecerem esses shows com o Angra no Brasil ele já havia me sondado para tocar em uma turnê na Europa em seu lugar. Além disso eu já tocava com o Edu e com o Felipe no Almah há alguns anos, portanto, aconteceu de forma bem natural. Em 2011 ele precisou se ausentar do Brasil por motivos pessoais e acabei fazendo uns seis shows com a banda no lugar dele. Apesar de ter sido de última hora e eu ter tido que tirar um repertório bem complicado em pouquíssimo tempo, o resultado foi muito bom.

Fizemos um ensaio e alguns shows realmente grandes com o Angra como o Festival Porão do Rock aqui em Brasília. Foram momentos muito especiais e os fãs foram extremamente gentis e amigáveis. Só recebi feedbacks positivos. Uma grande experiência.

Marcelo, muito obrigado mais uma vez por essa entrevista. Agora vou te pedir para dar alguns conselhos para os guitarristas e fique à vontade para acrescentar algo que queira. Obrigado!

Obrigado, Cauê. Foi um prazer dividir um pouco do que penso e vivo na música.
Existe uma citação que diz “Qualquer caminho serve pra quem não sabe onde quer ir“.

Se você sabe o que quer, se sente de verdade que essa é a sua vocação, estude muito trabalhe sério e corra atrás do seu projeto de vida e não se desvie do seu caminho. Viver de música num país como o nosso não é fácil mas temos grandes exemplos de pessoas que conseguiram e muito bem. Seja eclético, saiba que música é um trabalho como outro qualquer e que pouquíssimos se tornam rock stars, ou seja, não dependa de dar essa “sorte“ pra viver. Grande Abraço!

Cauê Leitão é guitarrista do Andragonia e também tem seu trabalho solo.

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Confira “Silent Screams” clipe por Andragonia.

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Victor Santos

Victor Santos

Editor-Chefe em Imprensa do Rock
Victor Santos é editor-chefe do Imprensa do Rock e Diretor Geral do Programa Unimetal. Desde 2011, vem trazendo conteúdo de qualidade para os amantes da música e do cinema.
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