Papo de guitarrista com Cauê Leitão: #2 André Hernandes (Andre Matos)

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Queridos leitores da Imprensa do Rock. Volto com a coluna “PAPO DE GUITARRISTA” com o mestre Cauê Leitão do ANDRAGONIA. Na entrevista passada de estreia recebemos o PAULO SCHROEBER. Agora na segunda edição, recebemos o ilustre André Hernandes guitarrista do Andre Matos, duas pessoas consagradíssimas no mundo da música. Confiram!

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Fala amigos e leitores da coluna “PAPO DE GUITARRISTA” como estão? Aqui quem fala é o guitarrista Cauê Leitão da banda ANDRAGONIA e espero que estejam todos bem, depois de inaugurar a coluna com o guitarrista PAULO SCHROEBER, trago a vocês a edição dois, com mais um dos principais guitarristas do Brasil, o André Hernandes conhecido como “ZAZA”, guitarrista da banda Andre Matos, confesso que é um dos meus guitarristas prediletos, é um cara bem acessível e humilde, que mostra ser um grande ser humano além de um excepcional guitarrista, estou feliz por estar realizando esse papo e espero que todos gostem e se divirtam!

André primeiramente muito obrigado por ter aceitado bater esse papo e quero te falar que sou um grande admirador do seu trabalho, o seu jeito de tocar é impressionante e você é um mestre na palhetada Híbrida, sem sombra de dúvida um dos maiores guitarristas do Brasil, quando estuda guitarra você tem essa preocupação em buscar técnicas e possibilidades diferentes? Hoje você estuda algo especifico para soar André Hernandes? E quando foi que começou a ter o desejo de desenvolver a palhetada hibrida no qual você é uma grande referência?

Muito obrigado pelas palavras de elogio, vindas de um guitarrista como você realmente me deixa muito feliz! E eu é que agradeço o convite para esse bate-papo

Quanto à pergunta se tenho a preocupação de soar de uma maneira mais pessoal, tenho sim. E foi essa busca que me levou a adotar a técnica de palhetada híbrida, que na época que comecei a desenvolver nem tinha esse nome. Aliás, acho que nem nome tinha! Isso foi em 1999.

A busca por um jeito pessoal de tocar continua, ainda não estou nem perto de estar satisfeito, e talvez nunca alcance este objetivo. Mas enfim, essa é a nossa vida! E a busca já vale por si só. Afinal precisamos arrumar algo pra fazer enquanto estamos aqui neste plano buscando nossa evolução e desenvolvimento como seres humanos. E estudar guitarra tem sido uma maneira muito prazerosa e gratificante.

Venho estudando uma coisa que chamo de “não linearidade” do fraseado. Tudo começou em 1999 quando assisti a um show de Hermeto Pascoal onde ele improvisou muito no piano. Pude perceber que a riqueza do fraseado dele vinha principalmente dos “saltos” entre as notas. Ou seja, da “não linearidade” do fraseado. E foi justamente quando tentei dar os primeiros passos nessa direção que percebi a necessidade de adotar o uso da palheta com os dedos. Afinal é muito difícil soar limpo, claro e com agilidade em salto de cordas. E com a palhetada hibrida podemos saltar quantas cordas quisermos sem muito esforço.

Eu tive o privilégio de ser aluno do Mozart Mello e sei que você também foi, sei que na sua geração não tinha tanta informação como tem hoje, era um sonho estudar com o Mozart, e conseguir uma vaga era bem difícil, e muitos alunos dele dessa época hoje são grandes guitarristas e profissionais, você acha que mudou muita coisa desta época em relação aos tempos de hoje?

Sim, acho que mudou. Hoje a informação esta mais acessível e mais barata, ou até gratuita. Porém, vejo muitas vantagens, mas algumas desvantagens. Na minha época atravessávamos a cidade de SP para conseguir pegar emprestado uma tablatura ou uma vídeo-aula. Então aquilo era quase como um tesouro, e ficávamos semanas ou meses destrinchando cada detalhe daquele material. Hoje vejo alguns alunos com gigas de memória em livros e vídeo-aulas, mas que acabam não se aprofundando em nada, pois ficam migrando de um material para o outro.

A internet é muito atraente! Quem não gosta de ficar horas assistindo vídeos de seus ídolos?! Mas é preciso cuidado! Desenvolver um instrumento exige disciplina. Então precisamos deixar os vídeos para nosso momento de lazer. Hora de estudo é hora de estudo. Na minha adolescência e juventude não tínhamos nada para fazer, então tocávamos guitarra o tempo todo.

André tem uma história curiosa que no começo da banda ANGRA você foi um dos guitarristas, você pode falar um pouco sobre isso e porque não ficou no ANGRA?

Realmente tive uma breve passagem no ANGRA. Na época este nome nem estava oficializado!

Eu já era amigo do Luis Mariutti, foi ele quem me convidou. Então eu conheci o Rafael, o Marcos, que era o baterista nesta época, e o próprio Andre Matos, no primeiro ensaio. Na época trabalhávamos em cinco músicas, quatro delas entraram no Angels Cry. Foi um período legal, tínhamos grandes expectativas, pois havia a perspectiva de oportunidades em relação a lançamento de CD, Tours, etc. Então trabalhamos muito, os ensaios eram diários e acho que estávamos desenvolvendo um trabalho de qualidade. Mas ai as oportunidades não acontecem exatamente como esperávamos. Somando a isso existia o fato de que eu não estava muito empolgado em tocar Heavy Metal. Não naquela época. O motivo era que eu vinha estudando e desenvolvendo com muita empolgação a música instrumental. E como ainda não eramos grandes amigos, afinal estávamos nos conhecendo, foi difícil para eu dar sequencia aos trabalhos com a mesma determinação que eles. Determinação essa que o trabalho exigia. Então acabei não me firmando como um membro da banda, não sabia se eu queria ser um membro da banda. Então inevitavelmente a coisa toda caminhou para uma separação. O legal é que não houve brigas, ninguém saiu prejudicado, o Kiko logo assumiu meu lugar e os trabalhos deles continuaram sem qualquer tipo de prejuízo. Então hoje sou amigo de todos eles e toco na banda solo do Andre Matos.

Hoje quais são suas principais atividades com a guitarra? Você pode falar que vive de guitarra?

Vivo de guitarra desde os 17 anos. Minha principal atividade é ensinar. Gosto muito de dar aulas. Junto com isso o estudo e venho tentando compor novas músicas, buscando algo diferente do que já fiz. Daí o motivo de estar demorando tanto tempo para lançar algo novo! Ainda não compus nada que me agradasse!

Quais guitarristas te influenciaram? Atualmente você pesquisa guitarristas novos? E você costuma ou costumava escutar guitarristas brasileiros?

Para falar de influências vou precisar separar em etapas. No começo foi Eddie Van Halen e Randy Rhoads. Depois vieram Yngwie Malmsteen, Steve Vai e aquela avalanche de guitarristas virtuosos muito legais da segunda metade dos anos oitenta, dos quais eu destacaria Greg Howe e Vinnie Moore. Então quando comecei as aulas com Mozart Mello, acho que foi em 1989. Ele me apresentou caras como Mike Stern, Scott Henderson, Pat Metheny, John Scofield, Allan Holdsworth, entre outros. Na musica brasileira foi principalmente Helio Delmiro, Lula Galvão e Toninho Horta. E foi uma paulada na cabeça!

Não sei se posso dizer que sou influenciado por todos esse ícones da guitarra, mas são os caras que escuto muito até hoje.

Dos guitarristas mais recentes tenho curtido bastante quatro caras do jazz, seriam Adam Rogers, Jonathan Kreisberg, Mike Moreno e Kurt Rosenwinkel.

Como é estar na estrada com o Andre Matos? E como você avalia hoje o Metal no Brasil?

Estar na estrada com a banda solo do Andre Matos é bem divertido. Vivemos experiências de todos os tipos, algumas até inusitadas. Em alguns shows tudo da certo! Em outros nada da certo! E assim vamos ganhando experiência.

Somos grandes amigos e gostamos de tocar e conviver juntos. Fora que é bem legal depois de uma semana de aulas e estudo, no fim de semana poder subir num palco e tocar alto, fazer barulho e sentir a energia do público!

Quanto ao heavy metal no Brasil, sabemos que as coisas não são como antes. Mas isso não é só com o heavy metal. Qualquer artista de qualquer estilo de musica que não seja dos mais populares no Brasil vem tendo que se virar! No caso do heavy metal temos a vantagem de possuirmos um publico muito fiel, que não se apega a modismos. Então continuamos fazendo discos, shows, e mantendo a banda unida e tocando. Isso já é excelente!

No começo da sua carreira você precisou trabalhar em outras áreas? Sua família sempre te apoiou na decisão de ser músico?

Na verdade a única vez que trabalhei em outra área foi aos 13 anos de idade quando entregava remédios em domicilio. Foi por um período de um ano, tempo suficiente para juntar o dinheiro para comprar uma guitarra, um amplificador e um pedal de distorção.

O engraçado de ser musico é que você não escolhe ser musico. Quando se percebe você está exercendo o oficio! Comecei a dar aulas e tocar na noite com 17 anos. A coisa toda foi aumentando e quando eu percebi já estava pagando minhas contas e adquirindo bens com minha guitarra na mão. Como em toda família de musico, havia a preocupação, afinal não é uma atividade das mais seguras e estáveis. Mas sempre me apoiaram e incentivaram.

Hoje pra você qual seria a principal deficiência dos novos guitarristas?

Não sei se é uma deficiência, prefiro dizer é um habito muito comum entre nós  instrumentistas, e que pode impedir-nos de desenvolver um trabalho musical bem bacana, é olharmos demais para nossas deficiências e esquecermos as nossas virtudes.Ou seja, investimos muito tempo tentando corrigir nossas imperfeições e pouco tempo para desenvolver nossas virtudes. Vou dar um exemplo: Frank Gambale só usa o sweep. E precisa mais?!?! Não!! O cara é um monstro!! Acredito que quando ele percebeu a facilidade e/ou tendência em desenvolver essa ferramenta, se focou nela, fazendo com que alcançasse um nível extraordinário. Ou seja, ele se tornou um especialista, e com isso achou sua linguagem e sonoridade. E consequentemente sua realização pessoal e profissional como musico. Mas veja, isso dependente de idade ou nível de experiência. Percebo esta característica também em músicos com vasta experiência.

Qual equipamento você usa hoje?

Uso as guitarras do luthier Castelli desde 2002, são fabricadas totalmente a mão e com as especificações que peço. O cara é um artista, porque sou bem chato! Às vezes peço coisas que nem sei se é possível, principalmente nas combinações e ligações dos captadores, e ele sempre acha um jeito! Desenvolvemos junto um modelo signature. O resultado foi um instrumento incrivelmente versátil e com uma tocabilidade fantástica. Não me vejo tocando com outro instrumento!

Quanto aos pedais uso os da marca Nig, da qual sou endorser. São pedais de altíssima qualidade, desenvolvidos sob o implacável “controle de qualidade” do time de guitarristas endorsers da marca.

Meus amplificadores são da marca Rotstage. Escolhi esta porque também fabricam no esquema “hand made”. Como você pode ver sou adepto deste esquema! São amplificadores de altíssima qualidade e muito resistentes. Para aguentar o impacto de uma tour é indispensável que seu equipamento tenha essa característica.

As cordas também são da marca Nig. Venho usando-as desde 2006. Meus cabos são da marca Tecniforte, que dispensam comentários, sem duvida um dos melhores cabos do mundo! Uso também as fontes e pedalboards da Fire, marca relativamente nova e que vem crescendo muito rapidamente em função de qualidade e conceito de seus produtos.

Além de estudar com o Mozart Mello queria saber qual foi toda sua formação, passou por conservatório? Faculdade? Teve outros professores?

Fiz um pouco de violão clássico em conservatório. Estudei também um pouco de choro mas não lembro muita coisa. Fiz alguns cursos de harmonia e um de arranjo instrumental. Tive vários professores de guitarra, dentre eles destaco além de Mozart, Michel Perie e Alexandre Birkett. Alem de muita pesquisa em livros, vídeos, etc.

Minha banda Andragonia de ProgMetal lançou alguns clipes, e tivemos apoio de algumas mídias tipo MTV, mas várias mídias terminou considerando o som pesado e não abria portas, e ai a gravadora que estávamos na época sugeriu de lançarmos um clipe de uma balada acústica, e com esse clipe entramos em mídias que com um som mais pesado seria impossível entrar, o que você acha sobre isso?

Este é o “show business”! As gravadoras precisam vender, e se o artista depende dela para promover, divulgar ou simplesmente distribuir sua musica, terá que “jogar o jogo”.

É por esse motivo que hoje vemos tantos artistas buscando sua “independência” das gravadoras. Para ter a total liberdade de criar e promover seus trabalhos da forma que considera mais adequada e que represente melhor a sua arte.

A internet tem se mostrado uma aliada eficiente nessa busca. Você pode conseguir resultados substanciais divulgando, promovendo e comercializando sua musica através dela.

Hoje tem muitos guitarristas virtuosos, mais na hora de fazer uma composição fica um pouco a desejar, qual é sua opinião sobre isso? Você acha que o lado intuitivo é mais importante?

Tocar bem é uma coisa, compor bem é outra. Você pode se tornar um excelente instrumentista, para isso você precisa estudar, pesquisar e se dedicar muito ao instrumento. Isto fará com que você execute musicas com alto nível técnico, conheça estilos, linguagens, etc. Enfim, você se tornará um expert em seu instrumento. Mas isso não garante que você conseguirá criar boas musicas. Para isso é necessário pesquisar e estudar outros tópicos, tais como harmonia, arranjo, composição. Além de ter que contar com um pouco, ou muito, de talento, intuição e musicalidade. Ao longo desses anos na musica conheci pessoas que tinham enorme facilidade em tocar, mas dificuldade em compor. O contrario também. Muitos se frustravam. Outros conviviam perfeitamente com isso.

Enfim, acho importante o musico saber qual é a dele e investir naquilo. E sempre lembrando que com estudo, pesquisa e dedicação podemos alcançar resultados que nos surpreenderiam. Aquela velha máxima é uma grande verdade: “musica é 10% inspiração e 90% transpiração”.

André mais uma vez obrigado por esse papo, agora vou te pedir para dar alguns conselhos para os guitarristas, e fique à-vontade pra acrescentar algo que queira, obrigado.

Gostaria de agradecer a você pela oportunidade de estar aqui. Parabenizá-lo pelo seu trabalho. Agradecer também aos meus parceiros de banda. Agradecer aos meus patrocinadores que são as guitarras Castelli, amplificadores Rotstage, cabos Tecniforte, cordas e pedais Nig, fontes e pedalboards Fire.

Não sei se sou bom em dar conselhos, nem sei se estou apto a fazer isso, mas vai aí uma dica que acredito poder ajudar alguém naquela nossa eterna busca pela realização e satisfação musical: talento é pessoal, procure o seu, identifique-o e desenvolva-o.

Quero deixar um grande abraço a você e a todos os seus leitores, e agradecer pelo interesse em ler esta entrevista.

Cauê Leitão é guitarrista do Andragonia e também tem sua carreira solo.

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Lab Guitar Experience” – Cauê Leitão (Solo)

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Cauê Leitão

Victor Santos

Victor Santos

Editor-Chefe em Imprensa do Rock
Victor Santos é editor-chefe do Imprensa do Rock e Diretor Geral do Programa Unimetal. Desde 2011, vem trazendo conteúdo de qualidade para os amantes da música e do cinema.
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