Morrissey: provocante e desafiador em seu retorno à capital carioca

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Após cancelamentos da turnê anterior e o sucesso na luta contra o câncer,  um Morrissey tipicamente desafiador deu boas-vindas aos heróis, em seu retorno ao Rio de Janeiro na noite da última terça-feira (24/11/15), no Citibank Hall. Magro e em forma, a lenda natural de Manchester mostrou que estava de volta à sua teimosia logo na chegada, por “simular vômito” em cima da multidão que erguiam seus telefones celulares nas primeiras filas; entregue à linha do “I give you my life, and my service”, em tradução literal “Eu lhe dou minha vida, e meu serviço”, com sua ambivalente marca para o mesmo público, antes de lançar em um álbum perfeito a versão do ‘Suedehead’, que teve seus leais seguidores em êxtase desde o início. Na falta de um aquecimento, seu pré-show contou com montagem de video-clipes de teor altamente políticos; era uma transmissão do partido do manifesto de Mozza, caracterizando tudo desde racismo ao vegetarianismo, de Maggie Thatcher até as virtudes de suicídio; assim como em suas letras, os clipes foram bem planejados, inquietante e aspiracional.

O show em si foi calcado por seis faixas escolhidas a partir de seu álbum mais recente: “World peace is none of your business”, de 2014, mais do que prender atenção com seu material solo mais antigo, assim como com clássicos de seus dias como frontman do ‘The Smiths’. Ao todo, foi apresentado sete álbuns solo, assim como B-sides e até mesmo um cover de Elvis Presley, em um conjunto de 24 canções que certamente os fãs declararam sua lealdade e apetite pelo cantor.  A faixa título “World Peace.. “ é um clássico, enquanto que em “Earth is the loneliest Planet” e “The Bulfighter Died”, Morrissey acrescentou um aspecto latino ao seu desempenho, sem prejudicar a sua força política. É claro que havia como agradar multidões também, além de “Suedehaed”, “This Charming Man”, “You Have Killed Me”  (um pouco prejudicada pelo som de eco), “How Soon is Now”, “Everyday Is Like Sunday”, “Hector” e “Meat is Murder”, mantiveram aqueles não familiarizados com o seu mais recente trabalho empolgados; além desta última  ter sido acompanhada por um vídeo excruciante de abate de animais em todo o mundo; muitos foram forçados a desviar o olhar de horror. Morrissey, como de costume, não estava aqui para fazer amigos ou congraçar, ele estava aqui para desestabilizar e provocar reflexão. Ele conseguiu!

Adequada e oportuna “I’m Throwing My Arms Around Paris” acompanhada de uma bandeira francesa, inaugurou temporariamente um estado de espírito de solidariedade sombrio, enquanto a seguinte “Hector” ensinando-nos mais uma vez sobre a loucura das armas e violência. Antes do bis, um tímido Morrissey perguntou: “Estou indo bem?”, sem pouco charme. Ele foi muito melhor do que ‘bem’; estalou o cabo do microfone como um chicote por toda parte, enquanto entregava uma performance em que cada inflexão e expressão facial era puro Morrissey. Seu canto também foi excelente. A banda estava em sua melhor forma e contribuiu enormemente para um show que teve a sinceridade, beleza e empatia, bem como sendo angustiante, às vezes.

Morrissey não é apenas para ser apreciado, ele força você a pensar profundamente, para interrogar a si mesmo como ele estabelece as duras realidades da vida e do amor. Ele tem uma capacidade de transmitir crueldade, beleza hábil, aspiração e futilidade na qual é acompanhada por muito poucos (se houver) letristas; terminou sua última visita ao Rio com uma versão esperta de “The Queen is Dead”, ferozmente anti-realeza. Morrissey literalmente deitou-se nu ao final, rasgando sua camisa e lançou-a no meio da multidão. Quinze minutos após o término do show, cerca de uma dúzia de fãs ainda estavam lutando pela camisa (surpreendentemente intacta). Provocador, porém, tranqüilo, assim como seu herói. Quem sabe quanto tempo o impasse continua? A rainha pode estar morta, mas o rei está bem vivo.

Resenha por: Patrick Fitzgerald (Correspondente Irlandês)
Fotos por: reprodução
Agradecimento pelo credenciamento: T4F

Victor Santos

Victor Santos

Editor-Chefe em Imprensa do Rock
Victor Santos é editor-chefe do Imprensa do Rock e Diretor Geral do Programa Unimetal. Desde 2011, vem trazendo conteúdo de qualidade para os amantes da música e do cinema.
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