Flogging Molly @ Carioca Club – São Paulo/SP (06/10/2018)

Muitas camisas verdes entre as pretas e coros de #elenão em show no Carioca

Show de rock tem sempre muitas camisas pretas, certo? Sim, é verdade. Mas o que fez com que fosse diferente de um show de rock comum a apresentação da banda FLOGGING MOLLY, trazida pela Liberation, neste sábado na capital paulista, foi a quantidade de fãs optando pelo verde, a mais lembrada entre as três cores da bandeira da República da Irlanda.

Embora ainda perdendo em quantidade para os partidários da convencional camisa preta, era muito comum encontrar fãs optando pelos tons esmeraldinos de São Patrício. O que é explicado naturalmente pelo fato da Flogging Molly ser um dos maiores expoentes do estilo, que se convenciona chamar de Celtic Punk ou Irish Punk.

Confira como foi o show, com texto de Daniel Tavares e fotos gentilmente cedidas por Fernando Yokota.

REBELS & SINNERS

Abrindo a noite, os campineiros REBELS & SINNERS fizeram um show curto, mas conseguiram mostrar a influência de bandas irlandesas, notadamente, mas não exclusivamente, a própria FLOGGING MOLLY em seu som.

O quinteto, formado por Fernanda Pfaffenbach no violino, Phil na guitarra, Gabriel na bateria, Jonathas Peschiera no baixo e Renato “Gordo” nos vocais e outros instrumentos, mostrou canções de seu álbum “Day’s Just Begun” e algumas covers, como “Zombie”, dos CRAMBERRIES (que também está no álbum). Longe de apenas meramente reproduzir a música, Fernanda e Gordo conseguem embutir um duelo de violino e flauta.

Foto: Fernando YokotaGordo também aproveitou a ocasião para se manifestar politicamente ao iniciar a folclórica canção italiana “Bella Ciao”. “A gente tá tocando hoje num dia muito simbólico. Afinal amanhã a gente vai votar e escolher o que vai acontecer pra gente nos próximos quatro anos. Essa música não é da Irlanda, é da Itália, composta numa época em que o fascismo começava a tomar conta”. Na verdade, a canção foi composta no século 19, mas popularizou-se como hino da resistência italiana ao fascismo durante a segunda guerra mundial. “

Nem precisa dizer mais nada. Só ‘ele não’, continuou Gordo, sendo aplaudido eloquentemente.

Para fechar o show: “Essa é sobre resistir e ser você mesmo. Não importa pressão da sociedade e religião” disse antes de “Day’s Just Begun” que dá nome ao álbum.

FLOGGING MOLLY

E foi sob muitos gritos de um Carioca completamente lotado, que os FLOGGING MOLLY subiram ao palco.

A banda formada por Dave King (voz e violão), Bridget Regan (violino, flauta), Dennys Casey (guitarra), Matt Hensley (sanfona), Nathen Maxwell (baixo), Bob Schmidt (banjo/bandolin) e Mike Alonso (bateria), todos com muita cara e vestimenta de irlandês, alguns com boinas e suspensórios, estavam de volta a São Paulo depois de seis anos,  e fizeram com que o Carioca chegasse à sua lotação máxima.

As primeiras, “(No More) Paddy’s Lament” (precedida por uma introdução com “There’s Nothing Left”) e “The Hand of John L. Sullivan” já botaram todo mundo pra pular. E, claro, na hora do “ô ô ô ô”, em “…Sullivan”, o pessoal não sabia se pulava ou batia palma, ou ainda se entrava no coro.

Incrivelmente, um dos maiores sucessos desse caras:,“Drunken Lullabies”, vem logo no início do show (é mais comum que as bandas deixem esses momentos de climax mais para o final do show), mas antes, Dave ofereceu um brinde: “Saúde”, disse ele em português, Tenho que dizer que essa é a melhor cerveja brasileira que eu já tomei”, brincou, segurando uma Guinness. Ora, todo mundo sabe que é uma cerveja irlandesa, mas segue o jogo.

Dave ainda reconheceu alguém na grade que estava em Curitiba (onde a banda havia se apresentado na noite anterior) e pra quem prometera uma cerveja, e não se fez de rogado, desceu e foi entregar a breja pro fã que assistia ao segundo show em dois dias. Então, quando o banjo começou, todo os outros presentes enlouqueceram.

Foto: Fernando Yokota

Simpaticamente, Dave também pediu um alô para a banda de abertura, apontando para o camarote dos fundos, onde eles estavam. “Vamos voltar pro nosso primeiro álbum”, ele avisou antes de “The Likes of You Again”. E apontou pra alguém: “você nem tinha nascido na época”. Ainda no álbum, a próxima foi a faixa título, a instrumental “Swagger”. “Eu nunca me esqueço do quão maravilhosos vocês são”, exclamou o irlandês.

Depois de dividir “The Days We’ve Yet to Meet”, mais uma do novo álbum, “Life is Good”, com Maxwell, Dave perguntou ao público se eles concordavam que o FLOGGING MOLLY se mudasse e passasse a morar em São Paulo. Diante da óbvia resposta positiva ele impôs uma condição: “tem que ter mais Guinness”.

Em cada uma das músicas, no meio da galera, alguns se esforçavam pra fazer roda. Só que não tinha espaço para isso, diante da multidão que tomou o Carioca. E se havia uma festa no meio do público, havia também no palco. Todos os músicos davam sinais de que estavam se divertindo bastante. E o falante Dave King não passava um intervalo entre músicas sem dizer alguma coisa. Em “Life in a Tenement Square”, ele apresenta a esposa, “Bridget”, que toca o violino e flauta,“Essa canção me leva de volta à minha infância na Irlanda”.

Foto: Fernando Yokota

Dave, no entanto, não estava indiferente ao processo eleitoral que estamos atravessando. “Eu sei que amanhã é um dia importante pra vocês no Brasil. Espero que vocês consigam o que querem”, disse antes de “Float”.

Ele já começara a falar sobre a canção, “Está canção é sobre permanecer juntos”, quando irrompeu no meio da multidão novamente o grito “Ele Não“, obviamente só da plateia dessa vez. Sobre “Float”, a canção é uma das mais belas da banda e, ao seu fim, Dave diz que a recepção (merecida) a ela foi a coisa mais linda que já viu.

Estabelecendo uma conexão do público com sua própria vida pessoal, Dave avisou que a próxima seria sobre seu pai, que morrera há muitos anos.

Em “There’s Nothing Left”, quem tinha isqueiro acendeu, enquanto outros se viraram com as lanternas de seus celulares. Já no miolo de “Black Friday Rule”, belo e demorado embate entre o guitarrista que solou como quis e o baterista que “tocou como um trem”. Palavras de Larry. Ainda sobre familiares perdidos, Dave lembrou do pedido feito por sua mãe, no leito de morte, há dois anos: “Aproveitem a vida, aproveitem a si mesmos“. Era a deixa para a canção título do álbum mais recente, “Life is Good”. E o pedido está na letra. “Enjoy yourselves”, diz um trecho. Se vocês tiverem uma bebida nas mãos levantem para minha mãe, Helen King, foi o pedido de Dave.

Foto: Fernando Yokota

Eu disse que a própria banda estava se divertindo bastante, não disse. Pois em “Rebels” isso ficou ainda mais claro. Com todo mundo cantando, todo mundo bêbaço e o baixista tacando um demorado beijo na bochecha do guitarrista. Quem não tem aquele amigo que fica grudento quando está “melado”, né? E lá embaixo, em “Devil’s Dance Floor”, o público já não quer saber se não tem espaço. O Carioca inteiro vira um liquidificador. E o mais impressionante é que quem está levando isso tudo é, nada mais nada menos, que o som de uma flauta. É um clima de taverna. “Tocar para o público brasileiro é uma experiência incrível”, reconhece o vocalista antes de continuar com “World Alive”, sobre amizade.

E mais uma vez, entre cantoria e roda, o coro de “Ele Não” surgiu novamente em “What’s Left of the Flag”, sob aprovação de Dave, embora sem sua participação. Chegando perto do fim do show, “Seven Deadly Sins” é mais uma prova de que é impossível ficar parado. O septeto deixa o palco, mas Dave King faz questão de, mais uma vez, lembrar dos “afilhados” (agora podemos dizer isso, né?) REBELS & SINNERS, numa atitude extremamente simpática (quantas vezes não vimos as bandas gringas ignorarem completamente as suas predecessoras no palco?). O que fica é o coro: “olé olé olé, Flogging Molly”.

Foto: Fernando Yokota

Mas tem que ter mais. Volta todo mundo pro palco para a ótima “Crushed (Hostile Nations)”. No meio da música, Dave homenageia Aretha Franklin, recentemente falecida, com trechos de “Respect” e “Freedom”. E, da rainha do soul, a homenagem passa para o QUEEN (Rainha em inglês) com uma inserção de “We Will Rock You”.

O show estava bom demais, mas tem que acabar. “Gostaríamos de terminar com a primeira canção que gravamos”, disse Dave antes de pedir também palmas para a equipe que acompanha a banda e deixar um pedido: “Tenham cuidado com vocês mesmos”. É assim que “Salty Dog” encerra a fantástica apresentação. E ao som de “Always Look on The Bright Side of Life”, todos na banda se abraçam longamente. Dennys Casey vai além e se joga no público, fazendo um crowd surfing até o fundo do Carioca. E depois que quase todo mundo tinha ido embora, ainda estava lá, o guitarrista conversando e tirando fotos com todo mundo que queria.

Foto: Fernando Yokota

 

Foto: Fernando Yokota

Foi realmente um show incrível, cheio de energia e empatia. E fica a certeza de casas de shows lotadas, com camisas pretas e verdes, sempre que a banda resolver divertir e se divertir novamente por esses lados.

 

Agradecimentos:

Liberation e Ultimate Music Press, especialmente Costábile Salzano Jr, pela atenção e credenciamento.

Fernando Yokota, pelas imagens que ilustram esta matéria.

Setlists:

REBELS & SINNERS (algumas canções foram cortadas do set)

  1. Julie
  2. Till The Bottle
  3. Poison Heart
  4. Follow Me Up To Carlow
  5. Mother Three
  6. Sam Song
  7. Zombie
  8. Bella Ciao
  9. Day’s Just Begun
  10. Devil Went Down to Georgia

 

FLOGGING MOLLY

  1. (No More) Paddy’s Lament
  1. The Hand of John L. Sullivan
  1. Drunken Lullabies
  1. The Likes of You Again
  1. Swagger
  1. The Days We’ve Yet to Meet
  1. Requiem for a Dying Song
  1. Life in a Tenement Square
  1. Float
  1. The Spoken Wheel
  1. Black Friday Rule
  1. Life Is Good
  1. Rebels of the Sacred Heart
  1. Devil’s Dance Floor
  1. If I Ever Leave This World Alive
  1. What’s Left of the Flag
  1. Seven Deadly Sins
  1. Crushed (Hostile Nations)
  1. Salty Dog