Filme Amores Urbanos: confira como foi a cabine e coletiva de imprensa em São Paulo

amoresurbanos6Vera Egito deu uma coletiva de imprensa no cinema Frei Caneca, em São Paulo, para falar sobre o seu primeiro longa metragem como diretora “Amores Urbanos” ao lado do elenco principal, e produtores executivos Heitor Dhalia e Ducha Lopes.

Matéria e Fotos por: Andreza Oliveira
Edição: Victor Santos

O filme é uma comédia dramática que narra a vida três jovens aos trinta anos, que moram no mesmo prédio e dividem suas histórias e desventuras amorosas.  O Longa metragem tem estreia marcada no Brasil no dia 19 de maio, mas a sua primeira exibição mundial foi no festival de Miami, o filme também concorre ao prêmio Público no Festival de cinema Brasileiro em Paris e segue ganhando destaque internacional.

Amores Urbanos tem produção pela Paranoid e distribuição pela Europa Filmes e retrata muito bem a cidade de São Paulo, com suas luzes e movimento noturno, chama atenção por sua bela fotografia e deixa ao público a reflexão “Até quando dura a juventude?”.

Após exibir o filme para a imprensa em uma sala de cinema, Vera Egito contou como surgiu a ideia do longa metragem, a escolha do elenco e da participação dos cantores Thiago Pethit e Ana Cañas e sobre a experiência de lançar um filme que retrata muito bem a diversidade no amor.

amoresurbanosdestaqueComo surgiu a ideia do filme? Você vivenciou um pouco dessas histórias retratadas? E quais são seus últimos trabalhos?

Vera Egito: Eu estava em Cannes com uma amiga Rafaela Carvalho, que é diretora também, e eu penso em uma garota e as questões dela e eu penso na Laura para atuar. Joguei essa história! Meses depois a Laura me ligou e disse “- Rafaela Comentou sobre a minha ideia de um filme. Vamos fazer?”. Isso foi em dezembro, quando foi em fevereiro eu mandei um e-mail para uma turma, dizendo: “ Se você está recebendo esse e-mail é por que eu quero que você faça parte do meu novo filme” e terminava “Vamos agitar essa vida besta!”.  Ai eu juntei essa turma em casa, fizemos a primeira leitura do roteiro e ele já era muito inspirado na Julia, e os amigos surgiram dela surgiram para retratar outras formas de se relacionar dentro da turma. E ai foram surgindo os coadjuvantes. Foi muito natural! Depois eu reescrevi o roteiro e a gente passou uma noite debatendo, e o que eu percebi dessa vez é que o debate começa sobre o roteiro e passa para a vida. E ai eu passei essa noite captando mais material, escrevi o segundo tratamento apresentei ao Heitor, ele fez alguns notes importantes que foram os que geram o terceiro tratamento. Ele disse que estava legal o filme e que a Paranoid iria entrar. E foi o que tornou o filme possível, por que é um filme de baixíssimo orçamento mas que contou com a estrutura,  além do investimento financeiro da Paranoid e do Heitor, contou com a estrutura da produtora. O terceiro tratamento saiu em julho, durante uma reunião que Andressa  diretora executiva sugeriu de gravarmos em setembro. E entre escrever e filmar foram poucos meses! E acho que no universo, quando você libera uma coisa as outras vão se liberando. E o meu próximo filme é a batalha dos estudantes, que a gente deve gravar no começo do próximo ano.

Você dirigiu algum filme antes desse?

Vera Egito: Eu dirigi dois curtas. É meu primeiro longa como diretora, e é o primeiro longa da equipe, da produção não, mas da diretora de fotografia, de arte, eu e o elenco.

Renata Gaspar: Acho que todo mundo queria fazer isso. E todo mundo era muito amigo também, todo mundo já se conhecia. Todos queriam fazer de coração, e foi um set muito intimista, com poucas pessoas. Não tivemos figurinista, colhemos as nossas roupas mesmo, não tinha maquiador.

Maria Laura: Apesar de ser o primeiro longa somos uma equipe muito experiente, independente de não ter feito o primeiro longa é uma equipe que vem de sets. Tem uma história dentro do set de filmagem, ou fazendo curta, publicidade, televisão ou clipe. Então, não tinha medo, havia uma confiança em todo mundo.  As coisas fluíam tranquilamente, todos nós viemos de anos de batalha, de labuta.

Como surgiu a ideia de chamar para o elenco os cantores Thiago Pethit e a Ana Cañas? Você precisou convence-los?

Vera Egito: O Thiago é meu amigo muito próximo e eu já fiz vários clipes dele. Ele é ator de formação e eu já o vi muito no palco de teatro, ele fazia parte da companhia do Marcelo Lazarato, que é a companhia do pai da Julia no filme. Ele sumiu por um ano e eu o reencontrei na cinemateca, e me disse que estava trabalhando com musica. E nisso eu já estava vendo um clipe “Canção francesa” e o clipe era uma animação, não tinha o nome dele, e eu não tinha associado que era o meu amigo. Eu abri um site e estava lá “Novo single de Thiago Pethit” com a cara dele. Dai a gente se reuniu e não se desgrudou mais!  O Diego foi escrito para ele, e ele jamais ousou dizer não (Risos), a Julia sempre foi a Maria Laura, foi escrito pra ela.

A Renata entrou depois de uma conversa com os dois, que disseram que ela seria perfeita para interpretar a Mica.   Eu tive um almoço com a Renata para levar o roteiro para ela ver o que achava, dois dias depois ela cortou o cabelo (Risos) por que a Laura disse que a personagem tinha os cabelos curtos.

Renata Gaspar: A Vera me disse “Seria interessante se você tivesse o cabelo curto”. E meu cabelo passava dos ombros (Risos).

Vera Egito: A Ana Cañas foi uma ideia do Heitor, era outras atríz que iria fazer o papel, mas ela pegou uma serie de TV e não conseguiu espaço na agenda. O Heitor estava em uma ponte aérea, encontrou a Ana e me ligou dizendo “Ela não poderia ser a Duda?” Eu disse que jamais pensaria, mas sim é interessante! Dai mandei o roteiro para ela. A Duda no filme seria uma menina que não assumia a sexualidade por ser insegura,  e quando a Ana leu o roteiro ela me disse: “- Amei o roteiro, amei o filme, mas eu não consigo fazer isso por que é muito diferente de mim. Eu não sou atriz e não sei fazer essa personalidade”. Eu entendi e reescrevi a Duda para a Ana, no jeito que ela tem de falar e debater assuntos, e ela aceitou por estar mais próximo a sua realidade. A gente ensaio bastante, ela não decorava texto, então a Ana lia e falava do jeito dela. E o Thiago não, como ele foi o trabalho de ator normal por que ele já é ator.

Thiago Pethit: Eu vim, mas não nessa ideia de ator normal. No teatro ninguém me ensinou essa técnica que é: existe o Thiago, existe o Thiago Pethit e existe o personagem. São layers que o publico vai ter que decifrar. E isso pra mim foi muito engraçado, por que tem essas três camadas ali, complexando um pouco quem é o Diego. A gente não aprende isso no teatro (Risos).

Thiago eu queria saber como foi a construção desse personagem?

Thiago: Eu não diria que foi uma construção, eu diria que foi uma exposição de algo que já esta aqui. Eu faço parte dessa turma que esta aqui, eu conheço essa historias, eu vivi essas historias. Aquilo era muito do material humano do meu humano em São Paulo. Tinha uma coisa muito familiar, por isso que eu digo que não foi uma construção por que em nenhum momento eu precisei me afastar de alguma coisa que me fosse familiar para ter o sotaque ou para entender como seria uma experiência. Mesmo com a morte do pai do personagem é uma experiência que não precisa de construção, eu tenho um pai e um dia ele vai embora. É um sentimento comum a todos. Eu sinto que de algum jeito foi mais uma exposição da minha realidade e eu arranjei uma forma de trazer isso a tona.

Vera Egito: Thiago você é solar, para fora e o Diego sempre está bebendo ou de ressaca, está sempre por baixo, ele fazia um esforço para comentar algo, e você sempre fazia um esforço para não ser o Thiago. Eu entendo que você está falando que é natural, mas eu acho que você fez um trabalho. Engraçado pessoas sempre falavam “Ah, o Diego é o Thiago” e eu dizia, não é! E ainda bem, por que o Diego é bem difícil! (Risos).

Thiago tem algumas musicas suas no filme. Elas foram feitas especificamente?

Thiago: Pegaram e não pediram permissão! (Risos). As musicas já estavam prontas e coincidiu o período de filmagem com a gravação do filme. Eu já estava para lançar o disco com essas musicas, e eu me lembro do dia que eu mostrei a ultima música do filme para a Vera. Inclusive tem uma foto registrada desse momento (Risos). Isso seria algo mais natural, eu e a Vera somos muito amigos a muito tempo e sempre falamos disso, temos essa troca. Eu faço música como esse filme foi pensado, são coisas que se relacionam. É muito natural que minhas músicas se encaixem em um filme desses. Eu sou urbano e eu faço música urbana, não busco a raiz do sertão do brasil. Eu acho que as musicas de fato naturalmente se relacionam com essa obra.

Você disse que tem muito do Thiago no Filme. Eu gostaria que você pontuasse o que tem de diferente?

Thiago Pethit: Na verdade eu não acho que tem muito do Thiago (Risos). Me desculpem pelo o que vou dizer, mas o ator é sempre sobre ele, não interessa construção. Isso não existe, construção é um jeito de chamar alguma coisa dentro de nós, esquizofrenia (Risos). É sobre a gente sempre, sou eu ali de algum jeito, são os meus sentimentos expressados de um jeito Diego. A gente tem um ponto em comum que é uma certa lógica pessimista do mundo, de entender o amor de um jeito, de entender a liberdade um pouco parecido. Mas somos muito diferentes, todo o resto é diferente. Ele é uma pessoa muito ácida e eu sou uma pessoa mais dócil. Meus pais me amam e me aceitam (Risos), eu não vivo de ressaca, acordo super cedo. Mas acho que tem um felling parecido entre eu e ele, mas aquilo não sou eu.

O fato de ter câmeras fixas durante a gravação foi mais desafiador na hora de fazer as cenas, ao invés da câmera móvel que acompanha os movimentos?

Renata Gaspar: Na verdade eu acho que é o contrario disso, tivemos mais liberdade. A direção também nos deixa muito a vontade, e respeita muito os momentos que viriam de cada personagem naturalmente, as nossas escolhas. E a câmera parada me deixou até mais a vontade. Eu estou fazendo um paralelo agora em um programa na televisão, que são mil cortes e tudo muito picotado com trilhos e eu preciso fazer um ballet no set todo dia. Isso é mil vezes mais difícil! Eu sei o que você quis dizer sobre uma câmera acompanhando, mas as vezes é até mais difícil por causa do foco e posicionamento. E parado você fica ali (Risos) o que você faria naquele ambiente?

Maria Laura: Como a Renata falou, sobre a Vera dar muita liberdade pra gente, em alguns momentos a gente não sabia sobre enquadramento também. Tinha momentos que ela avisava, tinha momentos que a gente perguntava como estava o enquadramento e tinha outros que assim, ela enquadrava o que ela quisesse, ela e a diretora de fotografia a Camila. Na primeira cena do filme, uma em que eu saio do quadro, eu não sabia que eu estava saindo de quadro. Então a gente não tinha essa preocupação. Nós fazemos a cena como tem que fazer e eles enquadram na maneira que tem que enquadrar.

Vera Egito: A ideia da câmera fixa era por que o maior desejo era que fosse o mais naturalista possível, um retrato, uma crônica que parecesse que você realmente estivesse espiando a vida de alguém acontecendo. Então esse conceito da câmera parada é um pouco dessa câmera Voyer que não interfere na cena, ela olha a cena e você está ali tendo acesso a uma realidade e a intimidade de outra pessoa. E por isso que os atores saem de quadro e voltam e dá essa sensação de que eu to ali espiando e as pessoas estão se movimentando. Eu acho que o que a Renata falou é que nos ensaios a gente ensaia na locação e eu não dou marcação para o ator antes dele fazerem a cena. Tipo: Ah, você está sentado e você levanta, fala aqui em pé e depois você senta e dá uma pirueta. Eu passo a cena e vejo o que eles fazem primeiro, e o que que é natural para o ator fazer, se ele prefere fazer uma cena sentado eu digo para ir fazendo e depois a gente afina. Então quando a gente chegou nesse momento de filmar, aquela movimentação ou a não movimentação já estava armado ou já estava de um jeito natural para eles.

Renata Gaspar, como foi interpretar uma personagem homossexual que está em uma relação que ela se anula? A sua namorada vivia o seu mundo, mas você não podia viver no mundo dela, como foi construir essa personagem?

Renata Gaspar: Independente da namorada da minha personagem não querer se assumir a sexualidade, a Mica passa por um lugar de quase rejeição e aceitação. E eu acho que todo mundo já viveu isso uma vez na vida! Eu tive muita referência disso, dessa sensação, e o texto e todo o contexto ajudou a realizar isso. Então, esse assunto é meio genérico.. O que que você perguntou exatamente? (Risos)

Perguntei se você já viveu isso na sua vida, e se trouxe alguma memória emotiva para construir o personagem?

Renata Gaspar: Não, eu não faço isso (Risos). As sensações de rejeição são sensações e elas estão ai. Já vivenciei isso, e se eu quiser pegar essa sensação eu pego, mas a rejeição é conhecida por todo mundo. Não estou dizendo que sou uma pessoa que me sinto rejeitada, mas eu já passei por essa situação. Então usar isso em outro contexto, eu acho que é normal.

Vera Egito: Engraçado que na primeira vez que eu escrevi o roteiro eu chamei amigos e a cena que a Mica era rejeitada era em uma festa de família, originalmente. A Mica queria ser apresentada para os pais da namorada. E ai as minhas amigas lésbicas disseram:  “- Vera, isso é muito forçado, por que se a garota sempre foi hétero, nós que somos lésbicas desde novinhas entendemos a dificuldade de apresentar para a família. Você namorar uma menina que nunca namorou uma menina você não vai querer de cara ser apresentada para os pais, por que é a coisa mais difícil”. E eu mudei a cena por causa desse feedback. O roteiro teve muita referência de vida de amigos.

Vera como você observou esses personagens, retratando adultos de trinta anos como se fossem adolescentes? E como surgiram esses personagens?

Vera Egito: É engraçado por que eu vejo umas resenhas do filme falando sobre a juventude, que é um filme sobre a juventude. E eu falo, juventude mais ou menos! Eu tenho 34 anos, a maioria do elenco tem vinte e tantos, trinta. Porém, as histórias foram criadas diretamente, não biograficamente. Mas eu juntei um monte de acontecimentos de quem esta a minha volta e de mim mesma. E é isso, eu acho que a nossa geração foi muito protegida, de certa forma. A personagem Mica fala isso para a Julia “Tudo o que eu quiser, o cara lá de cima vai me dar” tem uma coisa Yupia aí, meio anos 80 que formou uma geração que aos 28 anos não paga o próprio dentista. Essa classe média branca retratada no filme, que é bem o caso da Julia, que é inteligente é culta, mas parece que não desmama nunca! A Mica e o Diego são um pouco mais ferrados, eles estão se virando mais, mas ainda assim tem essa pergunta do filme “Até quando dura a juventude?”.

E ai num ponto positivo, eu acho que se a juventude é você seguir o que você acredita, se quer namorar uma menina ou um cara, ser DJ ou não ser, pagar ou dividir o aluguel seja o que quer você quiser seguir, ainda que seja transgressor ou mesmo que não seja aceito, ai sim a juventude pode durar para sempre, enquanto você tiver coragem de fazer o que você acha que é certo. Agora financeiramente, o lance de assumir uma responsabilidade de fato é uma adolescência tardia. Eu vejo isso em quem está em minha volta, em mim mesma. As historias foram muito baseadas no que acontece. Para algumas pessoas eu até escrevi “Olha, essa cena aqui é baseada naquele lance que você me contou uma vez, ninguém vai descobrir que é você, mas eu estou avisando”. Isso para três ou quatro amigos não tomarem susto quando assistissem o filme (Risos).

Como é lançar um filme que retrata a diversidade bem ás vésperas da Parada Gay?

Vera Egito: É engraçado por que eu já ouvi esse feedback em alguns festivais, eu gosto muito da comunidade LGBT se reconhecer no filme e dizer que realmente é um retrato fiel. Eu tive uma conversa em uma mesa em Paris, depois da exibição e tinhas brasileiros e franceses, alguns eram gays ou lésbicas e em algum momento eu disse que para mim, esse filme é sobre o amor. Não existe amor gay ou amor lésbico, ou  relacionamento gay, as pessoas se relacionam e se apaixonam, se ferem, se fazem felizes, homens ou mulheres. Os sentimentos são exatamente iguais. O que esta retratado aqui é a minha vida, os meus amigos, para mim é assim e sempre foi. O filme é o que eu vivo em São Paulo, e se você fizer um retrato sincero, será sempre assim. Eu tenho muito tenho muito orgulho de retratar essa comunidade, embora eu não veja como uma comunidade no meu dia-a-dia, é isso. Não existe um tipo de gente que é um tipo de gente, as pessoas são como são.  Desde que eu escrevi o tratamento a Mica só se relaciona com outra menina, porque duas amigas minhas passaram por isso, de namorar atrizes que não queriam se assumir. Esse é um atrito como o amor, de se sentir rejeitada. Outro, um amigo e uma amiga foram expulsos de casa ainda adolescentes,  quando os pais descobriram a sexualidade, e eu emprestei isso para o filme. São conflitos da vida!

Maria Laura: Qualquer história, da Mica, Julia ou diego, poderia servir para qualquer um dos outros três. Acontece no mundo heterossexual a pessoa não querer te assumir, por algum outro motivo. Qualquer historia, a não ser da gravidez (Risos) serviria para qualquer um.

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Victor Santos

Victor Santos

Editor-Chefe em Imprensa do Rock
Victor Santos é editor-chefe do Imprensa do Rock e Diretor Geral do Programa Unimetal. Desde 2011, vem trazendo conteúdo de qualidade para os amantes da música e do cinema.
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