Entrevista com o Confronto – quinze anos de porrada no ouvido dos fãs.

confronto

A Imprensa do Rock, no mês de março, teve a belíssima oportunidade de entrevistar pessoalmente a banda carioca Confronto. Uma banda que ha 15 anos está apresentando o melhor do Metal/Hard-Core e tudo isso sem papas nas línguas, cantado em português. Saiba o que a banda está preparando para 2014, agenda de shows, um pouco da biografia contado pelo vocalista Felipe Chehuan e o baixista Eduardo Moratori e muito mais. O bate-papo aconteceu na agência da Sob Controle em São Paulo. Um obrigado muito especial a banda e as pessoas por trás que a todo momento nos recepcionavam carinhosamente.

IDR: Como foi toda a ideia para formarem o Confronto? Existe alguma peça-chave no grupo? Ou todos transmitem suas ideias e a banda aceita o que cada um deseja produzir?

Felipe Chehuan (vocal) – Formamos a banda em 1999. Éramos amigos já da época de adolescência, na época de shows de rock, já nos conhecíamos no cenário underground, e tínhamos uma ideia de formar uma banda que fizesse um som bem pesado, com letras bem políticas.

Cabeças do grupo, não tem. A banda é uma banda de amigos, todo mundo tem oportunidade e chances de expressar suas ideias e vontades, tendo bastante poder de veto, se algo não agrada a um integrante que seja, a gente procura não fazer em nome da banda, em nome da amizade e aqueles que compõem a banda. O instrumental fazemos sempre em conjunto, as vezes o Max tem umas ideias, o Dudu tem outras ideias, até que nesse último disco tem músicas tanto do Dudu, como do Max e até do “Felipinho” (Felipe Ribeiro – Baterista).

Existem letras minhas em conjunto com o “Felipinho”, como tem letras só minha e dos outros integrantes. E a essência da banda, é a paixão de poder se expressar da forma que queremos, expressar nossas indignações, nossas frustrações, e até nossas alegrias e usamos a música como intermédio disso.

IDR: Para o nome da banda, sentimos uma fortíssima pegada, no que se refere o CONFRONTO? Qual a origem e o significado?

Felipe Chehuan – O Confronto é desde sempre questionar o sistema em que vivemos, não aceitar de início tudo que é imposto pela sociedade desde quando nascemos, e escolhemos esse nome mesmo, pra ser um nome forte e que reflete tudo aquilo que temos como ideia pra que a banda seguisse. Sempre tivemos uma temática política, voltada pro lado social, pra realidade de problemas periféricos, oriundos de onde nós vivemos e confrontar o dia-a-dia, confrontar os problemas que tivemos, os problemas que temos e os problemas que a gente vê. Essa foi a ideia, não se calar.

Confronto – “Immortal

IDR: A banda está ultrapassando praticamente uma década e meia de existência, com todos os trabalhos lançados e comparando com o novo álbum vocês consideram estar no auge da banda ou cada um dos álbuns sempre teve a repercussão que todos esperavam?

Eduardo Moratori – É, posso dizer que a banda em questão de composição, de música, chegou não sei dizer se no auge, mas, no geral, estamos completos e que todo mundo está feliz pra caramba de ter feito, sem pressa. Nos divertimos muito compondo as músicas, acho que foi o melhor disco que a banda compôs, cada álbum teve o seu mérito, mas todo mundo ficou bastante satisfeito com a liberdade e a ousadia de experimentar tudo nesse último disco, tudo que quissemos fazer, não ter rótulo algum com o estilo. Quisemos fazer algo pesado com todas as influências de cada um resgatando ideias da nossa adolescência, não tivemos medo de ousar, tentamos no reinventar.

Eduardo Moratori e Felipe Chehuan – E assim, “Immortal” é um disco diferente, mais completo não digamos que o álbum esteja no auge, não sei onde vai parar, talvez não seja que a gente esteja satisfeito com tudo que conquistamos, vamos querer sempre buscar mais e mais, ganhar o mundo queremos tocar mais do que já tocamos, explorar lugares que ainda não exploramos e estamos dispostos a ir pra guerra mesmo.

IDR: Para que uma banda possa ir a algum lugar, são necessários diversos ensaios, paciência, dedicação, algumas broncas aqui e ali e tudo se resolvendo ao final. No começo da carreira da banda, voltando um “pouquinho” no tempo, sempre foram rígidos ou sempre veio aquela “vibe” que deixavam todos tranquilos e a coisa fluía naturalmente? Se referindo ao som…

Eduardo Moratori – A banda sempre foi intensa, a ideia era montar uma banda e tocar muito, sempre tentamos ensaiar muito, sempre estarmos todos nos dedicando, viajar muito, sempre sem parar. A ideia era tocar rock onde desse pra tocar, viajar pra qualquer lugar que fosse viável e metíamos sempre as caras.Nunca tiramos férias, nunca paramos, qualquer dificuldade que tínhamos sempre tentávamos reparar, nunca tivemos medo quando fomos pra Argentina e o Chile por exemplo, nos influenciamos muito através de outras bandas, não fomos pioneiros nisso porém pensamos: “meu, se esses caras conseguiram, por que nós também não conseguiríamos?”. Nunca tivemos medo de novos desafios.

E tudo que foi acontecendo na nossa carreira, na nossa história, foi tudo graças a essa nossa coragem, de enfrentar outro continente, e sem saber o que esperar, sem saber chegar num outro lugar, chegar num outro país e sem nenhuma ideia, saber o que poderia estar acontecendo com pouco dinheiro no bolso, sem saber nem se conseguiríamos voltar e a gente sempre foi assim, uma banda que enfrentou.

Sempre quisemos ser uma banda ativa, sempre estar tocando e desde sempre a essência numa banda é tocar e praticamente a nossa vida é a estrada.

Confronto – “Abolição

IDR: Nos dias de hoje, alguma coisa mudou ou vocês continuam na mesma sintonia, unidos?

Felipe Chehuan – Sim, passar 15 anos juntos tem que ser muito amigo, tem que saber entender o limite de espaço do outro, ver o que ele gosta e não gosta, depois de todos esse anos, temos que aprender a conviver com o outro, as diferenças, a banda é em si uma escola, como uma forma de casamento, de família, e eu chamo de tudo isso, não tem uma denominação, mas o principal, pra banda dar certo é quem nem essa pergunta, ser bastante como irmãos, que só assim a gente consegue conviver bem e curtir esses momentos sabe, por que nada como você curtir com os seus amigos um som, ou uma turnê, um disco e saber que aquilo ali é motivo de muito orgulho e lá pra frente você vai olhar e dizer: “pô, fiz um disco tão legal, uma turnê legal” e, a amizade tem que prevalecer.

IDR: O disco possui uma temática extremamente forte. Desde enchentes que ocorrem com o povo carioca e até mesmo alguns outros brasileiros em algum momento passam por isso, o tráfico de drogas, etc. Isso que citamos as faixas “Dilúvio” e “Emissarium”. Existe algum tema central em torno do disco?  O que da pra entender é que o principal tema seja o cotidiano.

Felipe Chehuan – Exatamente, não existe um tema central o Confronto sempre foi uma banda preocupada com esses problemas sociais que afetam todos nós, brasileiros, sul-americanos. E os que vivem mais afastado do centros, a galera periférica, das favelas, e possuímos letras de diversas assuntos. Nos discos passados temos letras que falam sobre os hospitais, temos letras que também falam sobre o tráfico, como vocês mesmo citaram em “Emissarium”, “Dilúvio” falando sobre as chuvas e em especial na cidade onde a banda ensaia, em Petrópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro, todo ano acontece problemas com a chuva, vemos nas notícias cidades sendo devastadas, famílias desaparecendo, sumindo do mapa, e não é nenhuma novidade, todo ano a mesma coisa acontece e a gente se revolta em saber que não muda e a preocupação foca com a “Copa do Mundo” a “Olimpíada”, sendo que ainda não temos estrutura pra receber eventos como esse e você vê tanto dinheiro sendo desperdiçado com grandes construções onde não vai salvar vidas de muita gente, digo que sabemos que a maioria das pessoas vão continuar sendo abandonadas e esquecidas por esse sistema que a gente vive.

A gente tenta colocar os temas nas coisas que vivemos no dia-a-dia, o convívio que a gente vê pelo menos, que temos como exemplo próximo, que hoje é o que eu digo pra você, morar no terceiro mundo está sendo um problema e além, é óbvio que quem mora nas periferias, nas favelas, sofrem muito mais e viver está sendo muito difícil sabe, pagar as contas, tudo tá muito caro no Brasil, a saúde, a educação, o transporte-público. Todos não funcionam como deveriam funcionar, entendeu, e tudo isso é combustível pra escrever letras, pra se indignar, ver tudo isso e não se indignar, só um “zumbi”, por que se sofre todo dia com problemas e a gente é mais uma voz que não se cala, o confronto é isso ai.

IDR: Existe alguma composição preferida do disco e que merece ser destacada?

Felipe Chehuan – Eu gosto pra caramba de “Meu Inferno”, gosto de “Immortal”, “Guerra”, a gente é meio suspeito pra falar, por que acabamos de fazer o disco, todo mundo curtindo, esse é um disco que de todos que eu já gravei é o que eu mais ouvi, sabe, nas outras gravações que a gente fica ali naquele lance de estúdio, no ambiente, tá ouvindo o álbum toda hora, as vezes dava no saco chegar em casa, “pô tá pronto” e deixa o disco ali e depois escuto. Esse não, esse cheguei ouvindo deste que recebi a master eu escuto o disco, é um disco que me agrada, isso é uma coisa que me deixa muito feliz, e acho que os caras também, tenho certeza que gostaram bastante.

Foi o que o Dudu falou, foi um disco que tivemos possibilidades de ver com muita calma e experimentar elementos e usar um pouco da ousadia de tentar coisas de que nunca tínhamos feito antes. Estamos muito satisfeitos.

IDR: Por quê escolheram cantar em Português e não em Inglês? Existe alguma razão especifica pra isso?

Felipe Chehuan – Não, não existe nada especifico foi muito natural, quando a gente montou a banda já vinhamos de uma banda que já cantava em português. Eu, o Max e o baterista Felipe, e a banda anterior do confronto que o Dudu também tinha músicas em português e fomos meio que naturalmente, quando escrevemos as primeiras letras, sempre escrevi em português, foi tudo muito natural, a gente acha que o português voltado pra nossa realidade, que por ser na nossa língua normal, isso facilita a compreensão direta de quem tá ouvindo dos fãs sul-americanos, bacana você chegar na America latina, qualquer país da América e saber que quem tá ali, tá entendendo por mais que não seja em espanhol, seja em português, mas é uma língua irmã e tudo mais e reverter o bem também na Europa. Mesmo a gente cantando em português nas turnês, tivemos um feedback muito bom dos nossos fãs em países da Europa, em línguas completamente avessas ao português, exemplos de Russo, enfim, Tcheco, Polonês, Alemão, e vendo um feedback dessa galera tentando cantar a nossa música é muito motivante saber que porra, que em português a gente consegue despertar isso.

Eduardo Moratori – Em português, começamos a dar uma maior ênfase, mais uma importância a isso que a gente começou a ver que tipo assim, dava uma nova cara pro metal a música pesada no Brasil, principalmente a América latina que começaram a chamar a gente de “a revolução do metal latino-americano”. Por isso, a gente adora bandas como Sepultura. Pô ouço desde criança, era tipo assim, um pouco do que os americanos faziam/fazem e agente deu uma cara de nossa mesmo. Pensando, por quê não cantar em Português? Errar em Português, nas nossas turnês os “gringos”, Europeus, começaram a achar legal e curtir isso, “a banda porra, música porrada, cantando na sua língua, num lugar onde o inglês impera.

Felipe Chehuan – E é uma forma de resistência cultural também, por que querendo ou não a grande maioria querendo ou não 90% cai pra esse lado e a gente usou, não foi premeditado, mas aproveitamos esse gancho e se deu certo no primeiro, no segundo, por quê não continuar?

Eduardo Moratori – Não que tenha alguma coisa contra com bandas que cantam em inglês, mas é uma coisa que digo pra você. Se tiver que cantar em inglês, vamos cantar em inglês, se tiver que lançar algo em italiano, vamos lançar em italiano. A gente não tem essa que existe uma regra, sabe, desde que tivermos vontade de gravar em algum idioma qualquer que seja ele, acho que essa naturalidade, essa possibilidade de fazer o que quer, o que gosta é que é a cara do confronto. Não pegamos muitas regras, apenas o que gostamos na hora que der e vier.

IDR: Sobre agenda de shows, o que está por vir pela frente?

Felipe Chehuan – Bom, a agenda tá grande, crescendo. Dia 23/03 voltamos pra São Paulo, no interior em Pindamonhamgaba, dia 12/04 tem em Petrópolis no Rio de Janeiro, dia 18/04 tem em Cascadura no Rio de Janeiro, dia 25 de Abril, voltamos pra São Paulo só que no Litoral em Santos, e Ferraz de Vasconcelos nos dias 25, 26 e 27. No dia primeiro de maio tem no “Barra de Blues” lá em São Gonçalo no Rio de Janeiro e dia 3 de Maio tem “West Tattoo”, convenção de Tatuagem em Bangu, fora shows que ainda estão pra ser confirmados e fechados e muitos planos pra esse ano, pra essa turnê, muita coisa boa acontecendo e diferente dos outros discos lançados, voávamos primeiro pra Europa, e depois vínhamos para o Brasil, dessa vez é um pouco diferente, estamos primeiro fazendo uma turnê aqui no Brasil e depois pensando nos nossos fãs de fora.

IDR: E pra finalizar, deixem algum comentário para os fãs de vocês e aos leitores da Imprensa do Rock. Esse espaço é de vocês. Até breve!

Felipe Chehuan – Imprensa do Rock, muito obrigado pelo espaço, por essa entrevista, nós estamos muito felizes com tudo o que está acontecendo com esse disco novo, com o “Immortal”. Digo pra você que o disco está praticamente esgotando a primeira prensagem. Está sendo muito bem elogiado, só temos a agradecer aos nossos fãs, ao público, do mundo inteiro, que tem apoiado o Confronto ao decorrer de todos esses anos. Agradeço a vinda de vocês do site aqui na agência Sob Controle. O Confronto em 2014, para o que precisar, a hora que quiser só entrar em contato e fiquem de olho nas nossas redes sociais: Facebook, no site oficial, Instagram, que quando menos esperar esteremos na sua cidade realizando um show. Quem quiser levar um show pra qualquer lugar, é só entrar em contato. Muito obrigado e é isso ai. CONFRONTO!

Agradecimentos: The Ultimate Music e ao Confronto.

Formação:

  • Vocal – Felipe Chehuan
  • Guitarra – Max Moraes
  • Baixo – Eduardo Moratori
  • Bateria – Felipe Ribeiro

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Victor Santos

Victor Santos

Editor-Chefe em Imprensa do Rock
Victor Santos é editor-chefe do Imprensa do Rock e Diretor Geral do Programa Unimetal. Desde 2011, vem trazendo conteúdo de qualidade para os amantes da música e do cinema.
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