Critical Fear: “O que temos hoje é um País que continua servindo as classes dominantes”

O Critical Fear é uma banda de thrash/crossover que já existe há 8 anos. O que fez mais burburinho com o nome da banda foi o lançamento do “Conflicts” em 2011, apesar de um tempo em hiato e cada vez mais a carência que a cena underground vive de bandas efetivamente ativas, o Critical Fear volta reformulado e com a promessa do álbum “Alone” que deve ser lançado no segundo semestre desse ano.

Entrevista por: Yasmin Amaral
Edição: Victor Santos

Quando surgiu a ideia de reformular o Critical Fear?

O que fez a banda ser reformulada, ou melhor, voltar a tocar foi o amor pela música, sabe depois de tempos na inatividade, entra fim de semana, sai fim de semana e bate aquela sensação de que faltou algo e esse algo no era voltar a tocar.

Toda reformulação é difícil, principalmente para quem já está na banda a mais tempo. Como está sendo o processo de adaptação e composição com os membros novos?

Sim, é bem complicado ainda mais quando você já tocou com diversas formações, chega uma hora que cansa, porém ao contrário do que ocorreu em outros momentos, agora sinto que a banda conseguiu as pessoas certas na hora certa. Miriam (bateria), Tiago (baixo) e Fernando (guitarra) são pessoas muito dedicadas e fáceis de se trabalhar. Fomos acertando e adaptando as músicas de forma bem tranquila e tudo dentro da capacidade técnica de cada um e tem rolado de verdade.

Poderíamos dizer que o Critical Fear volta com o mesmo cunho político de “Revolution’s Necessary” nesse momento em que o Brasil está sofrendo com essa confusão de partidos, etc?

Voltamos com o mesmo ideal, sinceramente acreditamos que a mudança verdadeira vem somente pela via revolucionária, a democracia burguesa não dá conta de resolver os sérios problemas sociais brasileiros, problemas que não são de agora, mas que remontam a todo processo de formação econômica e social do país, cito Lênin agora, o proletariado tem que assumir o controle do Estado Burguês e reconstruí-lo de modo que as instituições existentes sirvam aos interesses coletivos da classe trabalhadora. O que temos hoje é um País que, assim como antes, continua servindo as classes dominantes.

No meio dessa nova formação está a Miriam, nova baterista da banda. A presença de uma mulher na banda significa muito nesse meio que às vezes é tão preconceituoso. O que vocês veem na cena engloba machismo?

Eu particularmente acho fantástico ter uma mulher na banda, já é uma grande amostra de que não existe nada que um homem faça que uma mulher não possa fazer. Nossa sociedade é muito preconceituosa e machista e ter a Miriam na banda ajuda inclusive como incentivo para outras meninas que querem tocar, participar de banda, mas que muitas vezes não o fazem por serem vítimas de machismo e de comentários machistas como “Mulher em banda não vira“, “Me fala uma mulher que toque em algo bom” e coisas do tipo. E uma coisa é fato, existe sim machismo, no pouco tempo que estamos tocando juntos, já ouvimos vários comentários de surpresa do pessoal ao saber que a bateria é ocupada por uma mulher.

O cenário underground está sofrendo uma carência muito grande, porque existem bandas que, apesar de estarem ativas, fazem poucos shows ou não se preocupam em renovar seu repertório. Sem contar as milhares de bandas que, de repente, acabaram. O que vocês acham dessa defasagem de bandas no Brasil?

Acredito que a maior dificuldade das bandas em se manter tocando seja a condição financeira, não digo no sentido de ficarem podres de ricas com cachês volumosos e coisas do tipo, mas simplesmente não ter que pagar para tocar toda vida, o pessoal gasta com ensaio, gasta com instrumento, gasta com material e chega na hora de fazer o som em algum lugar qualquer muitas vezes o organizador ganha grana e não repassa nada para as banda, ou tem o caso onde se arma o rolê e o mesmo não recebe a divulgação necessária ou tem outra situação que é realmente decrépita, o cara gasta 50 conto de cerveja e não paga 5 ou 10 para ver uma banda underground tocar. Agora tomo como base nossa experiência enquanto banda, o Critical Fear, já fez um bocado de shows e acho que a maior ajuda de custo que tivemos foi de 150 reais e na maioria dos roles não rolou ajuda nenhuma e aí? (risos). Quanto isso custou para a banda? Nem por isso deixamos de tocar, você que está lendo deve estar pensando “mas a banda não tem letras de cunho socialista?”. Tem sim, mas ser socialista e torrar grana a vida toda para demonstrar a sua arte tem uma grande diferença. Retorno ao início do raciocínio, chega uma hora que as bandas cansam de nunca conseguirem ao menos o transporte, nesse sentido acredito que esse seja um dos principais fatores que fez surgir essa situação hoje de haverem poucas bandas underground ainda fazendo shows, a galera precisa apoiar mais as bandas underground, entrar nos shows, pegar material e ajudar o lance continuar acontecendo. Pensemos na seguinte situação, energia caríssima, combustível caro, comida cara e aí você chega na sua casa e avisa que gastará 100 para fazer um show no próximo fim de semana, se você for casado no mínimo ouve bronca e se morar com os pais leva bronca também, a menos que você seja  muito bem remunerado, o que não é o caso da maioria dos brasileiros.

O Critical Fear vêm demonstrando uma preocupação em produzir um material de qualidade em todos os sentidos, tanto na fan page, quanto no futuro álbum. Qual a importância de ter esse selo de qualidade pra vocês?

Hoje acredito que um selo bacana ajuda e muito na divulgação do trabalho da banda, no sentido de levar sua música e suas ideias ao maior número de pessoas possíveis, mas claro, pessoas que curtam de verdade o tipo de som que você faz. E para conseguir isso pensamos que é necessário ter uma boa forma de apresentar a banda e seu trabalho, qualidade nas fotos, qualidade nas gravações e se possível qualidade nas composições, sobretudo isso é muito importante para a galera que curte o nosso tipo de som e que vai ouvir e acompanhar a nossa luta.

Existe a produção de um videoclipe para a música “Lies”. Vocês já têm ideia sobre onde vai ser a ambientação do clipe? E qual a mensagem que a música transmite?

Será nosso primeiro clipe em 8 anos de banda, o local ainda não definimos, mas provavelmente em algum ambiente urbano. A música fala sobre algo que realmente estraga as relações humanas, a mentira, o ato de mentir vem através da história ferrando com as pessoas, sejam elas comuns ou figuras históricas, a mentira está presente em todas as esferas da sociedade e em tempos de turbulentos, onde a imprensa burguesa vem manipulando e mentindo diariamente, achamos interessante usar um som com essa temática em nosso primeiro clipe.

Dando uma espiada na capa do álbum “Alone” dá pra perceber a referência ao “rústico”, feito à mão, mas mesmo sendo simples, ela representa bem o título. De quem surgiu a ideia da capa e do título e quem é o responsável pela arte?

A ideia da arte veio de um som que temos cujo título é “Alone” (que signifca sozinho), que fala sobre momentos difíceis e a solidão em que muitas vezes nos encontramos nesses momentos e decidimos fazer uma arte que representasse isso. O artista foi Felipe Lima o mesmo que fez a arte do disco Conflicts, quanto ao uso do estilo rústico, feito à mão é algo que curtimos, esse lance “oldschool” para nós é muito massa, mais uma referência da nossa vibe de som, os anos 80, onde artes feitas à mão eram muitos comuns, particularmente não curtimos artes feitas em computador.

O Critical está voltando inclusive para a estrada com gás total. Como é estar excursionando em diferentes cidades, sabendo que o nome da banda já é comentário?

É bem legal viu, fazia tempo que a banda não tocava e marcava shows, acho importante levar o som até a galera e mostrar que somos uma banda que também toca fora do estúdio, hoje em dia com toda essa tecnologia, muitos músicos tocam apenas em estúdio e ao vivo ficam um tanto engessados por não haver os recursos existentes dentro de um estúdio e muitas vezes não conseguem nem mesmo adaptar o som para o ambiente ao vivo, é por isso que sempre mantemos as músicas simples e bem na cara mesmo, para poder chegar e tocar em qualquer lugar sem ficarmos preocupados no fato de estar faltando a 6° guitarra da música ou a 2° introdução ou o 5° solo e essas coisas, gostamos é de simplicidade.

Qual é a expectativa do Critical Fear para os próximos meses e para esse reencontro com a cena underground do Brasil?

Primeiramente agradecemos pela oportunidade de estar aqui nesse espaço, muito honesto e válido, podendo estar contando um pouco da trajetória da banda. Esperamos gravar o próximo play, tocar bastante e divulgar nossa música e nossas ideias, afinal de contas o que realmente importa para nós é levar o Thrash/Crossover dos anos 80.

Gostaria de agradecer pelo tempo cedido e desejar boa sorte nessa nova jornada.

Victor Santos

Victor Santos

Editor-Chefe em Imprensa do Rock
Victor Santos é editor-chefe do Imprensa do Rock e Diretor Geral do Programa Unimetal. Desde 2011, vem trazendo conteúdo de qualidade para os amantes da música e do cinema.
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