Adair Daufembach: “uma banda para dar certo ela precisa ser inovadora e diferente”, diz produtor

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adairprodutorO Imprensa do Rock recentemente entrevistou o produtor Adair Daufembach, ele que trabalha com as bandas mais conceituadas do metal nacional e internacional como Project46, Hangar, John Wayne, Ponto Nulo no Céu e Tony MacAlpine.

Adair Daufembach: “uma banda para dar certo ela precisa ser inovadora e diferente”, diz produtor

Entrevista por: Vinicius Starteri
Edição: Victor Santos

Na entrevista o produtor comenta sobre seu início de carreira, alguns fatos curiosos, o que uma banda precisa para se destacar profissionalmente, qual seu melhor trabalho e sua opinião a respeito do atual cenário no Brasil.

Olá Adair, somos da Imprensa do Rock e gostaríamos inicialmente que se apresentasse para todos os nossos leitores:

Olá meu nome é Adair Daufembach, sou produtor musical e já trabalhei com várias bandas importantes do cenário metal brasileiro como Project46, Hangar, John Wayne, Ponto Nulo no Céu, Huaska e com alguns nomes internacionais como o guitarrista Tony MacAlpine no seu ultimo disco “Concrete Gardens”.

Poderia nos contar como surgiu esse interesse pela produção musical? Como se tornou o produtor que é hoje em dia?

A vontade de ser produtor surgiu em minha primeira gravação, em 2000 eu entrei numa banda chamada Soul Hunter e os caras dessa banda tinham todo o equipamento para gravarmos tudo sozinhos. Tudo muito precário, mas tínhamos a possibilidade de fazer e refazer tudo, quantas vezes quiséssemos. A experiência foi incrível, paixão a primeira vista. Basicamente foi a partir daí que desenvolvi uma das minhas principais características como produtor que é “se adaptar a qualquer lugar” para gravar. Qualquer lugar pode virar um estúdio de gravação para mim.

E a quanto tempo você trabalha efetivamente com produção musical?

Já trabalho como produtor há 13 anos.

Como foi sua evolução neste ramo e como tornou-se referência nacional com comparações a grandes produções internacionais?

Eu acabei ganhando destaque na produção musical porque desde o princípio eu me acostumei a tirar som do que eu tivesse em termos de equipamento e a estrutura do estúdio, para ter uma idéia, o meu primeiro estúdio era na lavanderia dos fundos da casa da minha mãe, sem aterramento, sem acústica nenhuma, nada, apenas uma lavanderia. Isso no Brasil é muito importante tendo em vista que comprar equipamento no nosso país é sempre uma barreira, pois para nós brasileiros tudo custa cinco vezes o preço em média. Lembro que logo que sairam as minhas produções, mesmo sem experiência nenhuma eu já comecei a competir com os estúdios comerciais da minha cidade, Cricíuma, em Santa Catarina. Eu cuidava muito da execução e das composições das bandas, tentando melhorar os arranjos e fazendo com a que a banda soasse absolutamente perfeita.

Era uma forma que eu tinha de compensar a falta de equipamento e conhecimento técnico: cuidava da música. Depois eu fui adquirindo equipamentos e aprendendo a parte técnica do áudio que é fundamental, mas uma coisa que mudou muito a minha forma de trabalhar foi a experiência que eu tive indo acompanhar a mixagem do disco do Hangar na Alemanha em 2009 com o produtor Tommy Newton. Ele gostou muito do trabalho e também, não sei porque, ele acabou tirando bastante tempo durante o processo de mixagem para me ensinar várias coisas, me deu muitas dicas. Ver logo no inicio da minha carreira um produtor que já tinha gravado dois dos maiores discos de metal da história, o Keeper of the Seven Keys Part. I e Part. II da banda Helloween, explodiu a minha cabeça. Depois dessa experiência eu tive novos truques na manga e uma habilidade de adaptação às situações e equipamentos extremamente adversos.

Gravei vários discos em vários Estados do País, o que facilitou muito conseguir fazer vários discos importantes para a minha carreira.

Acredito que essa é minha carta na manga em relação aos produtores gringos, nós brasileiros temos que nos adaptar ao que temos e quando temos a oportunidade de trabalhar com tudo do bom e do melhor arrancamos absolutamente o máximo isso é uma vantagem, um grande exemplo disso são as baterias do último disco do Ponto Nulo eu transformei a garagem dos Taboada numa sala de bateria, numa excelente sala diga-se de passagem, somente acrescentando colchões e cobertores que eles tinham na casa para controlar o reverb que era gigante. Foi um dos melhores sons de bateria que eu já fiz e foi tudo totalmente improvisado. Outro exemplo clássico é que o primeiro disco do Project46, “Doa a Quem Doer”, tudo foi gravado na casa do Jean Patton e do Rafael Yamada, nos quartos deles, exceto a bateria claro. Foi com esse disco que o Project46 tocou no Monster of Rock (risos).

Agora uma curiosidade, diga-nos qual foi o melhor trabalho realizado e também o pior?

O pior trampo que eu já fiz foram as minhas músicas como guitarrista solo (risos) é o famoso ditado “casa de ferreiro espeto de pau”. Eu fiz duas músicas e elas foram gravadas totalmente fora dos meus padrões, feito no tempo que sobrou, daí já viu né? É muito difícil eleger apenas um trabalho, um disco.

Eu acho que o trabalho mais importante que eu fiz foi a obra como um todo. Tudo aquilo que eu fiz junto ao metal nacional, tentando dar mais respeito a ele, principalmente às bandas Underground. Eu tentei ao máximo trazer qualidade para um grupo de bandas que realmente não tinham como chegar perto dos grande nomes nacionais e muito menos dos internacionais, dando valor à nossa língua ao convencer várias dessas bandas gravar em português. Deu certo, hoje é muito comum você ver bandas pequenas com um primeiro single muito bem produzido, por exemplo.

Isso foi um hábito ao qual o público apreciador do Underground brasileiro se acostumou. A barra subiu bem alto e só gera benefícios para todo mundo. O ápice disso foi ver Project46 e John Wayne no Rock in Rio 2015. Pra mim aquilo foi a vitória de um movimento não apenas daquelas duas bandas que estavam lá, eles mesmo ressaltaram isso durante o show inteiro falando para a galera um mensagem do tipo “esse show é para todas as bandas do movimento, existe toda uma cena por trás do que está acontecendo aqui somos apenas a ponta do iceberg”. Foi emocionante demais isso. É lógico que trabalhar com o Aquiles e o Tony MacAlpine foram coisas surreais, a única diferença é que eu fui trabalhar com essas duas lendas eles já eram grandes, o Underground nacional não. Quando a gente começou, as bandas e eu, éramos todos “ninguém”. Foi tudo do zero.

Sei que alguns leitores são músicos e possuem bandas, quais dicas você pode passar para quem deseja iniciar ou embalar neste mundo da música?

Pergunta difícil, porque para uma banda dar certo ela tem que ser inovadora e diferente. A história do rock nos diz isso, antes de uma banda ser boa ela tem que acrescentar algo, trazer algo que ninguém ouviu ainda. Isso em 2016 está cada vez mais difícil, afinal já se fez de tudo que se possa imaginar, até já misturaram metal com Bossa Nova (risos).

Huaska inventou essa loucura de enfiar um violão de nylon no meio de um monte de guitarras e eu estava lá ajudando nisso. Então eu acho que a receita para tentar inovar é, primeiramente, ouvir as próprias composições e fazer uma análise bem crítica sobre elas para saber se você não está repetindo algo que já foi feito, principalmente dos seus ídolos que é mais natural

Qual sua opinião sobre o mercado atual da música no Brasil?

Bom, hoje nós temos um problema número 1 que é o próprio Brasil, que esta em uma crise financeira. Se já era ruim agora piorou muito mais. Falando de uma forma prática, dentro do estúdio eu sempre vejo as bandas tentando achar uma forma de conseguir um produtor, uma gravadora, um investidor.

E isso é uma realidade que existiu por um tempo, no mercado brasileiro hoje, isso morreu, mesmo gravadoras grandes hoje lançam poucos artistas. Quando falo isso, falo em lançar mesmo, investir, gravar CD, gravar clipe, administrar a carreira do artista. Por isso fica muito difícil hoje no Brasil uma banda esperar que alguém vá fazer isso por ela.

Então hoje se uma banda quer dar certo, quer fazer shows, se auto sustentar para em algum momento viver profissionalmente de música, ela precisa aprender a se administrar e encarar que absolutamente tudo depende da banda. Tem que achar uma forma de ganhar dinheiro com a banda e produzir tudo.

Eu vejo que as bandas que mais dão certo hoje, dentro da banda têm diferentes profissionais que vão desempenhar esse papel, tem um designer, tem um cara que trabalha com vídeo, um produtor musical, outro que trabalha com mídias sociais.

A banda tendo essas pessoas é muito importante porque ela vai fazer seu próprio banner, ou organizar seus próprios shows, o que é muito importante porque é uma forma de ganhar mais dinheiro. Outro aspecto hoje é o merchand, que é a fonte número um de renda das bandas do underground brasilero. Então fiquem ligados, uma banda para ser bem sucedida hoje precisa trabalhar muito bem o merch, vender camiseta, bermuda, enfim lançar produtos que o público possa consumir.

Quais novidades você tem para nos revelar? Algum projeto futuro?

O grande projeto para esse ano já esta confirmado. O último CD do Tony MacAlpine eu mixei, e agora vou ter a oportunidade de participar do novo CD em todas as fases, desde a produção, gravação e mix. Isso vai me dar muito mais controle sobre todas as coisas, fora o fato de ter a honra de trabalhar aqui em Los Angeles com um artista desse porte.

*PROJETO DOS SONHOS*. Bom, sonhar não custa nada, meu sonho é gravar o metallica!! (risos)… Estou trabalhando para isso!!

Para encerrarmos essa entrevista com chave de ouro, poderia dar 5 dicas essenciais pra qualquer pessoa que deseja iniciar a carreira em produção musical?

01. Cuidado com o que você vê na internet. A internet é pública por isso você tem lá todo tipo de informação e todo tipo de pessoas, por isso tem muita coisa ruim, muita informação que joga muita gente no buraco.

02. Nesse mundo do inbox, onde tudo virou digital, plugins e blábláblá, nunca esqueça dos analógicos. Os analógicos vão facilitar a sua vida e dar a característica ao seu som.

Quando você compra um pré, um equalizador analógico hoje, daqui 5 anos ele vai ter um som diferente, e ele vai sem contar que hoje, as melhores produções do mundo ainda tem uma porcentagem de equipamentos analógicos no processo de produção gigantesco.

03. Preocupe-se com a música. Não comece uma gravação sem se preocupar com como serão todas as músicas desse disco. Porque falar sobre gravar um disco é falar sobre fazer arte. No inicio da carreira de produtor é muito difícil fazer com que as bandas paguem pelo seu trabalho, você ainda não tem moral com a banda para chegar e falar faça isso, mas é importante achar uma forma de você colocar a sua opinião. O começo da carreira eu acredito que um produtor não pode se envolver com trabalhos que ele não acredita. Ele pode pegar uma banda que ele até acha que é ruim, mas precisa acreditar que pode fazer a diferença, que no final do CD ela será melhor, porque no final do processo você não pode pensar que fez o máximo, você tem que ir além, e realmente fazer com que a banda soe melhor.

04. Gravem baterias!! Não caiam no erro de fazer disco com tudo ampliado, por favor. Por que? Porque artisticamente é muito pobre, como o Lars disse no documentário do Black Album, a bateria de um disco é o alicerce da casa, então como você vai usar um alicerce que todo mundo no mundo tem acesso?Mesmo em trabalhos que eu uso sample, que preciso trocar os canais de bumbo, caixa, eu uso os samples do próprio baterista. Ou seja, os elementos do seu prato principal, que é o disco, tudo tem que ser feito na sua cozinha!! Por favor não desaprendam a gravar bateria. Arranjem logo uma sala, comprem equipamentos e gravem bateria, mesmo que sejam muito simples porque o som vai ser o seu e não de um sample que esta na internet e todo mundo pode usar.

05. Enquanto eu estou trabalhando com a banda eu preciso entrar na banda, eu preciso tocar na banda, eu preciso fazer parte daquele projeto. Se eu não acreditar 100% na banda para mim não vale. Quando eu estou produzindo um disco eu brigo para que as coisas que eu acredito estejam lá, obviamente com respeito a identidade da banda, porque o disco é da banda, mas meu nome no final estará lá, e eu acho que não vai agregar nada a minha carreira se eu tiver feito parte de trabalhos que não acreditei.

Victor Santos

Victor Santos

Editor-Chefe em Imprensa do Rock
Victor Santos é editor-chefe do Imprensa do Rock e Diretor Geral do Programa Unimetal. Desde 2011, vem trazendo conteúdo de qualidade para os amantes da música e do cinema.
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